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outubro 14, 2003

Cocó-alma-de Poeta

Ainda não lhes contei da alma de poeta do meu Galo de Barcelos. Mas primeiro tenho que explicar que este ano fui à Feira do Livro comprar umas histórias a ver se a minha Cèlinha lhes pegava, e uns romances para mim que gosto muito de ler histórias. Não sou muito dada a romances de amor, gosto mais de livros policiais, e de mistério e de espionagem. Eu cá acho que é por ter uma vida assim um bocado parada e pouco interessante, e por isso vivo as aventuras dos outros. E fico toda contente quando consigo descobrir o autor do crime antes de ler o nome dele no livro.

Voltando à Feira do Livro, no stand da Câmara (é assim que se escreve, D. Olímpia!) Municipal de Lisboa estavam a dar um livrinho com quadras populares do Senhor Fernando Pessoa. Como todo o bom Português, nunca digo que não a uma coisinha grátis (menos aventais dos partidos políticos, porque gosto de ser eu a escolher o meu avental).
E não é que gostei do livro? Eu não era muito chegada a poesia, mas sim senhores, fiquei fã! (quarta-feira, na Ribeira, compro poesia porreira . olha só que linda rima!).
Vai daí, comecei a gostar de ler o livro; e lia assim em voz alta, fazia de conta que era o senhor João Villaré ou o senhor Vítor de Sousa e isso. Deviam ter visto o meu Cocó! O bicho parecia tonto, de olhos fechados, a abanar o corpo. Se eu não tivesse passado a tarde na cozinha com ele, até apostava que o bicho tinha tomado alguma coisa esquisita, daquelas que não se vendem na farmácia nem podem ser substituídas por genéricos.
Mas não, o bicho só tinha milho na moela! Estava assim com uma coisa que devia ser um êxtaze. Quis tirar a coisa a limpo e parei; o bicho ficou logo quieto. Li outra quadra, e tumba! lá estava ele! .Então, Cocó, .tás-te a sentir mal?. .Porque é que paraste? Isso dá uma ganda pica!. (tem uma linguagem muito moderna, o meu Cocó). .Nunca tinha ouvido nada parecido! Foste tu que escreveste?. .Não, Cocó.... e lá lhe expliquei que era do Senhor Fernando Pessoa, que a Câmara tinha oferecido. .Gostava de conhecer esse Fernando. Deve ser do baril, para escrever coisas tão bonitas.. Tive que explicar ao Cocó que o senhor já morreu. .Que pena! Podíamos fazer uma mesa de pé dum primo meu, que eu gostava de lhe dizer que o acho muita lôco. Lê lá mais um bocadinho, vá láaaa...!. E eu a ler como se fosse aquela Dona Luísa que ia ao .Acontece. que Deus tem, e ele de olhinhos fechados a abanar-se todo e as barbelas a dar a dar.
E foi assim que eu e o Cocó descobrimos a poesia e o senhor Fernando Pessoa!

.Por um púcaro de barro
Bebe-se a água mais fria.
Quem tem tristezas não dorme,
Vela para ter alegria..
E disse.

Opinadela de vitriolica às outubro 14, 2003 12:01 AM