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junho 18, 2004

Morreu no ano em que eu nasci

Fez cinquenta anos em 3 de Abril passado.
Chamava-se Aristides Sousa Mendes, e foi um dos raros não-judeus a ser publicamente homenageado pelo Estado de Israel, - em 1967, a Autoridade para a Recordação dos Mártires e Heróis do Holocausto considerou-o um Gentio Virtuoso e, no jardim que relembra os que arriscaram a vida para salvar os judeus na II Guerra Mundial, foi plantada uma árvore em sua memória.

Durante a segunda guerra mundial salvou das câmaras de gás aí umas 30 mil pessoas, dando-lhes vistos para Portugal no Consulado de Bordéus. Por causa do .atrevimento. sofreu um processo disciplinar, foi suspenso, perdeu o lugar de Cônsul e morreu na miséria.
Três pedacinhos de documento mostram-nos a bondade e a consciência de um Homem que pensava nos outros, sobretudo nos direitos dos que tinham perdido todos os direitos; e a coragem de desobedecer a um ditador para salvar as vítimas de um ditador/assassino.
Por tudo isto ele é hoje o meu herói.
Veja a seguir os documentos

Nota de culpa

Francisco de Paula Brito Júnior, Conselheiro de Legação e Chefe da Repartição das Questões Económicas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, deduz, na qualidade de Instrutor do processo disciplinar mandado instaurar por Sua Excelência o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros contra o Dr. Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches, Cônsul de 1ª classe actualmente na situação de disponibilidade por conveniência de serviço, os seguintes artigos de acusação:
[.]


Nos dias 18 e 19 de Junho, o arguido entrou na Chancelaria do Consulado de Portugal em Bayonne e, arrogando a sua autoridade de superior hierárquico, começou concedendo vistos a todos que os solicitavam, alegando que era necessário salvar toda essa gente.


Além de haver o arguido exercido numa Chancelaria que não era a sua, as funções do seu cargo, ordenou ainda ele ao titular do posto de Bayonne que concedesse, à semelhança do que estava fazendo, os vistos solicitados e que essa expedição de vistos fosse feita gratuitamente. [.]


A atitude do arguido deu lugar a uma situação desprestigiante para Portugal perante as autoridades espanholas e as alemãs de ocupação. [.]

Lisboa, 1 de Agosto de 1940

O Conselheiro de Legação Instrutor
Francisco de Paula Brito



Resposta à Nota de Culpa
Era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente cuja aflição era indescritível. [...] Não podia eu fazer diferença (...) visto obedecer a razões de humanidade que não distinguem raças, nem nacionalidades. [...]
Posso ter errado. Mas, se errei, não o fiz com intenção, tendo procedido sempre segundo os ditames da minha consciência que (...) nunca deixou de me guiar no cumprimento dos meus deveres, com pleno conhecimento das minhas responsabilidades.
Aristides de Sousa Mendes

Processo disciplinar
Pode o depoente garantir que, para resistir às súplicas e às implorações de tantos desgraçados, apavorados com a aproximação do invasor e o justo medo do campo de concentração, ou ainda pior, do fuzilamento, se requeria uma coragem moral pouco banal. [...] Eram milhares de pessoas angustiadas que tinham sido metralhadas ou bombardeadas na fuga. É neste ambiente, afigura-se ao depoente, que tem de ser vista e julgada a atitude do arguido.
Depoimento de Calheiros e Menezes, testemunha de defesa


E disse.

Opinadela de vitriolica às junho 18, 2004 12:00 AM

Opinadelas

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Revolver-se-á na sepultura ao ver agora os que tanto ajudou a praticarem os mesmos crimes, que outrora foram eles mesmos vitimas...Infelizmente há países que não sabem aprender com a História.E Israel é um deles...

Opinanço de: Valeria às junho 18, 2004 04:49 AM

Pagou bem caro o acto humanitário de salvar a vida a todos os que pode. Um herói contra a corrente. Era justo que a memória de Aristides Sousa Mendes fosse agora preservada na casa onde viveu, para que não fosse lembrado apenas na efémera notícia dos media. Estamos carecidos de valores e de exemplos.

Opinanço de: Inês às junho 19, 2004 08:29 PM

Se Aristides de Sousa Mendes (cuja memória eu respeito) fosse um funcionário do actual Ministério dos Negócios Estrangeiros, a sua actuação não teria servido de nada pois, actualmente, um estrangeiro que chegue a Portugal, mesmo com visto válido, pode ser impedido de entrar.
O Estado já não se respeita a si próprio...

Opinanço de: O Raio às junho 23, 2004 11:33 PM