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junho 29, 2004
Oásis
Chama-se Ana Sousa Dias, mas bem podia chamar-se Serena, ou Amável, ou Oásis. Tem um programa que não sei se chame de entrevistas ou de conversas. Mas gosto. São duas pessoas sentadas, num cenário assim prò preto, com um habilidoso fundo espelhado que nos deixa ver o reflexo do(a) entrevistado(a) quando a câmara foca a entrevistadora, e vice-versa. Uma mesa pequena, uma pessoa de cada lado. Tá feito um programa. E dos bons.
Não há cores, cenários, não há luzinhas, não há público a bater palminhas a mando dos "animadores" (domadores?). Nem bailarinas de serviço, nem orquestra, nada. Visto assim, parece coisa (de) pobre. Mentira. É dos programas que mais gosto de ver. Antes de mudarem o nome à RTP2 passava ao sábado às 21, e era pra lá que o Arnaldo zapava na hora barulhenta do final dos noticiários. Foi nessa altura que lhe pusemos o nome de "o nosso oásis".
Depois mudou de horário e perdi-lhe o rasto. Ainda não me habituei, porque tenho uma falta de memória desgraçada e ainda não fixei a hora. Como tudo neste país que tem um bocadinho de qualidade, de interesse, de assunto, foi despromovido no horário - segundas-feiras pelas 24.30 (era assim que era anunciado há bocado). Na Dois.
A Dona Ana é assim uma rapariga discreta sem ser apagada; é perguntadeira sem ser espalhafatosa nem agressiva; é simpática sem ter um ar assim meloso. É agradável, calma, atira-nos pela sala dentro um sopro de tranquilidade; tem sentido de humor mas não o exibe a dizer piadas: conversa de forma inteligente e a gente vê as estrelinhas do humor a brilharem-lhe nos olhos e a salpicar a conversa de vez em quando em comentários inteligentes.
E traz-nos pessoas; mostra-nos personalidades que não são personagens. Gente com uma pessoa lá dentro. Alguns já conheço, outros nunca vi - mas a gente fica a conhecê-los bem, e com vontade de conhecer mais sobre aquelas pessoas ignoradas que passam naquele programa fora dos horários a que chamam nobres (quando afinal o "sangue azul" corre noutras veias).
Os entrevistados ali não são as figuras que aparecem nos noticiários nem nas colunas sociais.
(Abre parênteses: não leio "revistas cor de rosa", porque me interesso por pessoas, e não pela vida das pessoas. A coisa mais "social" que leio é a coluna da TV Mais, e da Visão. São estas as minhas únicas fontes de informação no que diz respeito ao Jet-Três-e Meio nacional. Fecha parênteses.)
Os entrevistados ali são pessoas que fizeram ou fazem coisas interessantes e/ou importantes: cientistas, investigadores, escritores, poetas, e outros, muitos que já esqueci. Quase todos eles desconhecidos da maior parte dos Portugueses. Sabem falar, têm assunto, e a conversa corre assim como um riacho numa planície num dia calmo de primavera. Suave mas cheio de vida.
Ficava agora aqui mais um pedaço só a falar dos sentimentos e do clima que aquele programa me traz mesmo para dentro da minha sala.
Na semana passada o entrevistado foi o Senhor José Duarte - o tal do Jazz, esse mesmo. Foi bom revê-lo e sobretudo re-ouvi-lo. Duas pessoas com inteligência e uma pitadinha de humor. Uma hora inteira . mas podia ser toda a noite.
Hoje é o Senhor Joaquim Benite, do Festival de Teatro de Almada. Os dois juntos dão vontade de ir ao teatro.
Precisamos de mais gente desta, que tem força dentro. É gente assim que dá força a Portugal - mesmo sem rematar à baliza.
E disse.
Opinadela de vitriolica às junho 29, 2004 01:00 AM
Opinadelas
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Ana Sousa Dias merece bem esta deliciosa homenagem. Subscrevo inteiramente este post. O prazer da conversa, o dar a descobrir o outro. ASD usa o silêncio como incentivo à auto-revelação.
Opinanço de: Inês às junho 29, 2004 04:32 PM
Acompanho sempre que posso esse programa (Por outro lado), desde que pela primeira vez o vi. O entrevistado era, imagine-se um enólogo. Se me dissessem para ver uma entrevista com um enólogo chamava todos os nomes a essa pessoa. Mas por acaso, ao fazer zapping, fiquei a ver por alguns momentos, 1º por causa do cenário minimalista e depois atraída pela calma e serenidade da apresentadora. A entrevista foi deliciosa. Seja qual for o convidado, qualquer q seja o assunto, é sempre interessante, por todas as razões que apontou, Vi. Bem lembrado!
Opinanço de: Rita às junho 30, 2004 05:06 PM
excelente texto.
Opinanço de: nikonman às julho 3, 2004 08:01 PM