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fevereiro 21, 2005
Agora é que tem que começar a reflexão a sério
Pelo menos para o Senhor Engenheiro que vai mandar na gente todos. Veja lá bem a responsabilidade, Senhor Engenheiro!
Vou já esta noite começar uma novena à Irmã Lúcia pra ver se ela lhe ilumina a mente, e o coração e os caminhos.
De caminho faço outra a Santo António, cá da minha devoção, e outra a S. Francisco - tenho de andar sempre de bem com ele, porque é o Padroeiro dos meus três bichanos, sem esquecer o Cocó, claro.
A verdade é que não é só por isso, a Irmã Lúcia que me perdoe mas pelo resultado do dia ainda não tem a mão lá muito bem treinada nos milagres, e o Doutor Portas (Paulinho) que o diga!
(Ou será, Irmã, que é muito ajuizada e quis foi castigá-lo pela forma como ele se "pendurou" e se fez convidado, lá para a cerimónia que era íntima e de família? Pois se até dizem que a Irmã era uma pessoa inteligente e com sentido de humor! Olhe que se assim foi, tá uma partida muito bem pregada, sim senhores.)
Que eu cá respeito muito a Irmã e todas as pessoas que acreditam e têm fé, e há dias - mas são poucos - que até eu me parece que acredito. Se perguntar aí ao seu Chefe, ele explica-lhe que eu sou assim a modos de brincalhona, mas não é falta de respeito. E tenho mais amor ao próximo, e à Mãe-Terra, e aos irmãos bichos que muito praticante que vai à missa todos os dias!
Mas foi partida, não foi? Foi de maroteira, diga lá? Que ele, a bem dizer, andava mesmo a pedi-las, convencido que podia andar a dar cabo da carola aos portugueses e depois era só meter uma cunhazita aí no céu, e tungas! caíam-lhe dez por cento no colo, assim de mão beijada!...
Pois já que estamos aqui à conversa, se puder dê lá uma luzinha ao Doutor Engenheiro Sócrates - assim a modos como que a luz que tinha o outro Sócrates de antigamente, pessoa inteligente e sábia. E se for muito difícil esse milagre, ao menos olhe por este povo tão espezinhado e maltratado e vá fazendo um milagrezinho aqui e outro ali,pra tornar os dias menos negros e os futuros um bocadinho mais risonhos.
E então, qual é o espanto? Se se podem fazer orações pra vir a chuva regar os campos, não se pode fazer assim um pedido a uma quase-santa pra mandar um raio de sol e um bocadinho de arco-íris pra um povo cansado de não ter quem olhe por ele?
E disse. Prontos.
Posted by vitriolica at 12:00 AM | Comments (5)
fevereiro 20, 2005
Um bom concelho
Pois o meu concelho portou-se muito bem, sim senhores: mandou a Dona Abstenção sozinha prà praia dar banho ao cão (que a água do mar é boa pra assustar certos bichinhos que dão cabo da vida aos Bóbis), e ala votar! Ora vamos aos números:
- abstenção no concelho: 33,92%
- abstenção na freguesia: 29,6%
E disse. Na cesta Códrilhices
Posted by vitriolica at 10:21 PM | Comments (1)
Temos de mudar de vida (RAAAAAP*)
* - Rindo à parvalhona, ou a minha versão portuguesa do LOOOOOL

Posted by vitriolica at 09:54 PM | Comments (0)
A primeira abada já tá
Pelo menos, cá no bairro.
Acabo de chegar da assembleia de voto cá da minha freguesia, e inda venho de queixo caido de espanto: há muitos anos que não via tanta gente a votar.
Verdade, verdadinha, lá desde os cafundós de não sei que ano do século passado. Como de costume almoçámos às quinhentas, depois fomos à bica eu mais o Arnaldo, e lemos os jornais pra termos tempo de reflectir mais um bocadinho, que isto de pôr um voto numa urna pra eleger uma Assembleia e um Governo é uma baita duma responsabilidade, olá se é!
O Cocó queria por força que eu o metesse na cesta e o levasse, porque nunca viu ninguém votar, mas tive que lhe tirar as ilusões – e lá ficou o bicho a resmungar uns sons que tinham a ver com discriminação, e ditadura, e “que raio de democracia é esta...”. Adiante.
Pois é verdade, não sei o que deu ao pessoal cá da freguesia, mas a Escola tava com gente como eu nunca vi, e pela primeira vez em muitos anos gostei de ficar na bicha; nos outros anos a gente chegava lá e era logo entrar, que aquilo até era um desconsolo. Hoje, não, tinha praí umas cinco pessoas à frente, e quando saímos (eu e o Arnaldo, que isto, casal que vota unido mantém-se unido) havia outras tantas à espera para ir cumprir o seu dever cívico.
Agora resta esperar que os futuros senhores governantes façam o mesmo.
E pelas conversas de travesseiro (que os pensamentos a gente não conhece) até nem pomos a cruzinha no mesmo quadradinho, mas isso não interessa nada – o que interessa é ir lá e dizer de nossa justiça.
Como eu dizia no princípio, a primeira abada já está, que cá no bairro a Sôdona Abstenção não deve ter sorte nenhuma com tanto voto que já deve ter caído naquelas urnas. Almenos, os senhores políticos não têm a desculpa do costume: “Ai, votaram na abstenção? Pois atão a gente abstém-se de os governar e governa mas é a nossa vidinha!”
E quem ainda não votou, pois largue lá o computadorzinho e a Internet por um bocadinho – que eles não fogem, pegue na patroa ou no patrão e nos meninos e/ meninas, e ala até à assembleia de voto, e aproveitem e tomem um lanche na pastelaria e dêem uma voltinha no jardim, ou no parque, ou pelos arredores que tá uma tarde bonita pra passear e ver as vistas, que até já parece primavera. Mas só depois de visitarem a assembleiazinha! Só falta hora e meia, e pense que o partido da sua simpatia pode perder aquele deputado por um voto...
E disse.
Posted by vitriolica at 05:23 PM | Comments (1)
fevereiro 19, 2005
Uma campanha importante e séria
Pois é, a gente cá em casa também se interessa por coisas sérias, como as campanhas que podem mudar para sempre a vida das pessoas. Como este imeil que recebi hoje:
Todos os esclarecimentos podem ser obtidos no site do CEDACE Centro de Histocompatibilidade do Sul.
Esta mensagem (que me foi enviada por fonte de confiança) vinha acompanhada pela identificação e número de telefone da jovem desesperada. Se acha que pode ajudar, deixe recado nos comentários e receberá uma mensagem com o resto da informação para poder fazer o contacto.
Cá em casa somos três “incapazes” – um paludismo e duas faltas de peso -, e esta é a única forma de ajuda que posso dar. Quem puder fazer mais, terá “só” a recompensa de ter salvo a vida a um ser humano na flor da idade. Que podia ser a sua filha, a sua irmã, a sua namorada, a sua melhor amiga.
E disse.
Posted by vitriolica at 03:31 PM | Comments (1)
fevereiro 13, 2005
O Único e Verdadeiro Grande Acontecimento da Semana
Pois como eu dizia aqui por baixo, o único e Verdadeiro Grande Acontecimento da Semana foi outro, mas quando comecei escrever ferrou-se-me uma bela duma irritação contra os senhores que pensam que o povo todo é parvo e acredita em cantigas e promessas. E pior que isso, acreditam eles próprios naquilo que dizem – enquanto estão a dizê-lo. E com a irritação acabei por quebrar a promessa que tinha feito a mim própria e ao Cocó, que era não falar de políticas nem de campanhas senão no dia da reflexão, assim a modos de conversa com os meus botões a ver se fazia um balanço e tomava a Grande Decisão. A verdade é que os Senhores Políticos Candidatos não falam de mim, das minhas necessidades e problemas – e dos meus semelhantes – mas daquilo que acham que a gente quer ouvir. Por isso tamém não falo deles, tá decidido.
E ponto final no assunto política e vamos ao que é importante:
Esta semana, Senhoras e Senhores, Queridas/Queridos Visitantes e Comentadores, vocês atingiram (e já ultrapassaram) o bonito e redondo número de cem mil! Sim, um redondinho
Tábem, eu sei que o Barnabé, daqui a pouco, tem isso por dia. Pois merece, que aquilo lá é escrito por pessoas importantes e cultas e que sabem escrever bem sobre assuntos importantes e relevantes para o Estado da Nação. E até sabem escrever livros e tudo.
Há muitos mais blogues que, em quinze meses, tiveram bem mais de cem mil visitas. Pois. Mas eu, a Vi-zinha, aqui do meu canto da cozinha e só com a assessoria do meu Cocó, falando das nossas coisas assim domésticas de cada dia... Pois ficamos felizes, é claro que ficamos felizes!
Isto de ter havido pessoas que assim todas juntas e postas em carreirinha era como se fossem cem mil pessoas a terem entrado aqui, pois então não dá alegria a uma pessoa? Saber que há esta gente toda (e alguns vêm cá mais do que uma vez, que a gente sabe) que se dá à maçada de vir ler as ideias e pensamentos e opiniões que me dá na veneta partilhar com o resto da humanidade, pois tenho que confessar: isto aquece o coração a uma mulher.
É, pois, com as vozes trémulas embargadas pela comoção, os olhos marejados de lágrimas de gratidão, a voz rouca de emoção, os braços trémulos, que o Cocó e eu abraçamos todos e cada um de vocês, nossos eleitores (perdão, visitantes – de onde terá vindo isto), a cada uma beijamos repenicadamente em ambas ao bochechas, a cada um damos um forte abraço bem à portuguesa acompanhado de sonoras palmadas nas costas, e levantando/acenando ambos os braços (ambas as asas), dizemos:
- Bem hajam, queridos amigos! Continuaremos a governar, digo, a redaccionar este blogue na protecção dos vossos interesses (escrevendo o que nos der na real bolha), tendo sempre presente que é nossa missão servir os leitores (atrair muita gente pra ficarmos bem classificados nas estatísticas do Weblog) de forma desinteressada (a gente quer mesmo é ter muitos comentários), abnegada (nos dias em que a coisa não der, olhem, tenham paciência), porque almejamos fazer o real e verdadeiro Serviço Público (não sei muito bem explicar esta, mas concordem que soa bem!).
E disse.
Na cesta Vi-zinhaPosted by vitriolica at 12:11 AM | Comments (11)
fevereiro 12, 2005
O Grande Acontecimento da Semana
Não, não é nenhum desses em que estão a pensar. Porque, não sei se já repararam, mas ainda não falei da campanha eleitoral; e espero continuar assim por mais uma semana, se Deus NosSenhor quiser.
A minha ideia não é falar do que disseram que o Professor Aníbal parece que disse – ou pensou em voz alta? – nem dos que desataram logo às pedradas ao senhor antes sequer de terem a certeza de ser verdade; nem da peixeirada em que foi transformada esta campanha eleitoral, com candidatos de partidos que só fazem queixinhas de outros candidatos de outros partidos, e mais acusações, e mais notícias de coisas que se calhar aconteceram ou se calhar não aconteceram, e são coisa velhas e antigas, que aparecem agora “por acaso”, mas não tem nada a ver com campanhas nem eleições.
A verdade é que não devem ter, porque eu cá não tenho nada a ver nem sei nada de campanhas eleitorais. Se quiserem saber sobre o assunto têm que perguntar aos senhores candidatos e aos senhores dos meios de comunicação, que andam a correr uns atrás dos outros: os que querem ser filmados/fotografados atrás dos que querem filmar/fotografar, e vice-versa. Uns e outros ainda não perceberam que o povo tá cansado daquele folclore, que isso de folclore a gente é mais ranchos.
Essa história de andarem aí “de palanque em palanque” como dizia o outro só serve pra eles andarem entretidos convencidos que andam a fazer uma grande coisa. Agora até lhes deu para andarem com a tenda às costas, e armam a barraca onde quer que cheguem. Deve ser a única utilidade da taxa de desemprego, porque como está a aumentar assim têm muitos desocupados pra encher as tendas e compor o “boneco”. E lá andam os candidatos felizes da vida, a dizer aquelas coisas todas que são como as serpentinas e papelinhos que a gente guarda numa gaveta na quarta-feira de cinzas e até prò ano. Só que aqui são compromissos e promessas e guardam-se noutra gaveta no dia 21 e até daqui a quatro anos, se Deus quiser e o Senhor Presidente da República concordar.
E assim não falei do grande acontecimento da semana... mas volto já.
E disse.
Posted by vitriolica at 11:59 PM | Comments (0)
fevereiro 11, 2005
Conto de quê?...
Esta é a verdadeira história da história aqui por baixo:
Um destes dias encontrei um livro, numa daquelas lojas de livros usados. Era um livro de contos. Como o Cocó tem alma de puto, li-lhe as histórias, pois claro. O bicho gostou de todas, mas houve uma que ele adorou; de tal maneira que tenho de lha reler todos os dias, de há uma semana para cá. Só tenho pena de o livro não indicar o nome do autor.
Nos meus passeios pela internet encontrei umas coisas que me pareceram familiares, até que descobri: eram a versão 2005 deste conto de outras eras. Ora leiam aqui, mas depois não se esqueçam de comparar com isto e com isto .
E disse.
Posted by vitriolica at 12:00 AM | Comments (2)
fevereiro 10, 2005
Conto de encantar
Era uma vez um príncipe; alto, garboso, corajoso e bem-falante como se querem os príncipes.
Esse belo príncipe governou durante algum tempo uma província de um reino formado por várias províncias que se tinham unido para melhor resistir no caso de serem atacadas por vizinhos poderosos.
Ora acontece que o príncipe governava a sua província com pulso de ferro no que tocava à plebe, e só os nobres e os cortesãos tinham regalias e poder. Grande parte do povo vivia descontente, outra parte andava iludida porque sempre lhes tinham ensinado que o povo nasce para sofrer e para servir os senhores poderosos e ricos.
Àquele príncipe só uma coisa interessava: manter cheias as muitas arcas da sala do tesouro, com toda a sorte de jóias e metais preciosos. Para isso cobrava ao povo muitos tributos: para terem suas carroças, atravessar pontes, para trabalhar, para tirar água dos poços. Já os nobres pagavam pouco tributo por suas carruagens e caleches, por suas propriedades, e quando deixavam de pertencer ao Conselho do Rei recebiam grandes tenças. E com seus teres e haveres podiam consultar os melhores cirurgiões, ficando o povo, por força de seus poucos bens, limitado a consultar barbeiros e curandeiros.
Um dia o príncipe percebeu que o povo andava descontente e que ele corria o risco de vir a perder o trono.
Acontece que por essa época foi criado o cargo de Magnífico Príncipe, com a responsabilidade de governar os governantes de todas as províncias. Os príncipes das outras províncias acharam que, embora fosse um cargo importante e de grande responsabilidade e muitas honras, era mais importante ainda continuar a governar os bem-amados povos que lhes tinham cabido por destino. A eles estavam ligados por laços de lealdade, pois tinham jurado governá-los e servi-los e respeitá-los enquanto fosse esse o desejo de seus súbditos.
Iria por certo chegar-se a um impasse, não fosse o príncipe ambicioso ter tido uma ideia brilhante... “Pois se eu já não sou o bem-amado do meu povo, vou partir para terras distantes, lá no coração do reino. Serei eu o Magnífico Príncipe de todos os reinos, acumulando assim ainda mais poder e mais riqueza. Vou abandonar o meu povo à sua sorte, e o tempo vai fazê-los esquecer que governei contra eles. Quem sabe, um dia voltarei para ser considerado o seu salvador – nessa altura mudarei o meu nome para Sebastião”
Se bem o pensou melhor o fez, e em todas as visitas que fazia à Capital Geral do Reino sempre se punha em bicos de pés para que todos o notassem e pensassem “Que bela e alta figura, que porte garboso e ar diligente... dará um bom Magnífico Príncipe, e eu poderei continuar governando a minha província sensata e justamente como sempre fiz. E ele parece não desejar outra coisa.” Assim o príncipe se mudou para a Capital Geral do Reino.
Agora no seu cargo de Magnífico Príncipe fez transportar da sua província algumas magníficas tapeçarias e outros objectos preciosos para adornar os aposentos de acordo com a dignidade e importância do seu novo cargo. E fazia grandes discursos e falava de muitas reformas e leis que pretendia que fossem aplicadas a todas as províncias sem excepção, e era no mando muito severo. Apenas se preocupava com o conteúdo da Sala do Tesouro Geral do Reino, e pouca importância dava ao bem-estar do povo daquelas vinte e cinco províncias.
As estradas, mandava-as construir para as caravanas dos comerciantes melhor poderem mercadejar, pois era uma forma de enriquecer os que já tinham de seu, e arrecadar cada vez mais impostos que iriam engordar as já muitas arcas da Sala do Tesouro. E tudo o mais de governo que pensava e fazia e ordenava tinha o mesmo objectivo.
Enquanto assim agira no seu reino não tinha quem se lhe opusesse: os nobres do Conselho comungavam do seu desprezo pelo bem-estar do comum dos súbditos, e do desejo de benesses para si próprios; apenas alguns conselheiros escolhidos pela plebe pensavam de modo diferente, mas esses tinham apenas a voz e não o mando.
Agora as coisas eram diferentes, pois governava conjuntamente com nobres e príncipes das outras províncias, que não eram tão Magníficos mas governavam com os olhos no povo e não tinham no lugar do coração uma moeda de oiro. E esses príncipes não viam com bons olhos tanto interesse por objectos preciosos e honras e privilégios. Para eles o que realmente contava era a estima que recebiam do povo, fruto de seus cuidados com o bem-estar de todos, ricos e menos afortunados, poderosos e gente sem mando.
E começaram de fazer algumas leis que protegiam a plebe dos desmandos do seu Soberano Maior. Pois eles perceberam com seu engenho que aquelas leis que tinham como único fito a riqueza não estavam a dar grande resultado, e só serviam para acabrunhar e oprimir os povos de todas as províncias: pois o mando e o governo são para governar o povo, e não para se governar dele como pensam (e fazem) alguns.
A história acabava aqui, mas uma outra folhinha apareceu, caída não se sabe de onde, trazida pelo vento. Tinha só um parágrafo:
Um dia, um velho tão velho que todos os do reino se lembravam de ter conhecido velho desde que nasceram (e por essa mesma razão era cheio de humildade e sabedoria, já que quem mais sabe mais humilde se sente por perceber que ignora muito mais do que sabe)... esse velho sábio leu os astros que lá de cima tudo observam desde o início dos tempos; e os sinais dos astros eram claros: aquele príncipe era um impostor. Na realidade era um sapo dotado de poderes mágicos que lhe permitiam criar uma ilusão nos seres humanos – ilusão essa que os fazia imaginar um belo e garboso príncipe de voz maviosa onde não havia mais que um insignificante sapo de voz rouca, e de pele viscosa e irritante.
(esqueci-me de copiar o título da história: "O Príncipe que Nunca Deixou de Ser Sapo")
E disse.
Posted by vitriolica at 11:59 PM | Comments (3)
fevereiro 08, 2005
Senhora oferece-se
Até dia 18 de Fevereiro, disponível para comícios – de preferência em recinto fechado e com aquecimento -, banhos de multidão e actividades correlativas.
Senhora de meia-idade, baixa estatura e com ar de “popular”. Discreta mas eficaz, com curso de aplausos e beijinhos ao Líder – tirado por correspondência nas melhores Universidades online – , vasto vocabulário de slogans e frases feitas adequadas a cada situação/partido (incluindo entrevistas de rua às televisões), e preparação de ginástica especializada para agitar bandeirinhas.
Também faço entregas ao Líder: ramos de flores, galhardetes e outras lembranças de Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia ou Clubes Recreativos/Desportivos.
Disponho de equipamento próprio: fato de saia-e-casaco (preto ou cinzento-papo-de-rola) com pregadeira de estilo antigo, blusas várias de acordo com as cores partidárias, ou em tons neutros para usar com écharpes nas ditas cores; em alternativa, aceita-se cachecol do Partido. No entanto, em nenhuma situação será aceite qualquer tipo de chapéu, boné ou barrete – quer porque não me favorecem nada, quer porque já andei de barrete enfiado por políticos as vezes suficientes.
Viajo para qualquer parte do Continente, e aos Açores (sempre aproveitava para conhecer, que a minha vizinha Teodora disse-me que são muito bonitos) em qualquer dia da semana, e não enjoo de autocarro.
A figura ideal quer para manifestações espontâneas (desde que avisada com um mínimo de 24 horas de antecedência), ajudar a compor mesas em jantares de apoio, ou reduzir “clareiras” nas filmagens televisivas (a boa forma física permite-me ir do lado já filmado para o plano seguinte em poucos segundos).
Apoia-se qualquer partido, formação política ou candidato (assim cumássim vai ganhar um dos do costume, não vale a pena estarmos com coisas).
Tabela única: deslocações e refeições pagas pelo cliente; às refeições deve ser servida água mineral (nada de refrigerantes), e o autocarro deve dispor de aquecimento.
Faça a sua marcação rapidamente, pois a agenda está quase preenchida.
Contactos: aqui no blog – caixa de comentários.
E disse.
P.S. Idas à Madeira estão fora de questão, porque não apoio gente que vem cá sacar a massa e só diz mal do Cont'nãnt - é ingratidão e falta de educação.
Na cesta Vi-zinhaPosted by vitriolica at 12:00 AM | Comments (20)
fevereiro 06, 2005
Olha quem tá cá hoje!
Pois é, nós-zinhos da Silva, eu amais o Cocó viemos dar uma saltadinha só pra lembrar um dos meus ídolos. Se fosse vivo, tinha hoje para apagar trezentas e noventa e sete velas.
Eu aprendi a gostar dele por causa de umas coisas que li no liceu, lá nos cafundós do século passado. É que uma pessoa que escrevia assim bem, e falava melhor, e defendia os fracos, e foi perseguido pela “santa” inquisição, enfim, um homem que tem um currículo e pêras, dizia eu, esse é que merece ser famoso, e ídolo e herói e coisas dessas.
Agora assim mais a sério, a verdade é que eu fiz ontem cinquenta e um aninhos, e obrigada à dona Monalisa que deixou ali os seus parabéns, mais à Menina Jacky que é outra querida e me meilou uns parabéns muito bonitos.
E pronto, tinha que falar disto e tá falado, que é por causa de serem dois aniversários assim seguidinhos que eu nunca me esqueço do Padre António Vieira que é aquário de signo como eu, e viveu lá nos antigamentes do século dezassete: nasceu em 6 de Fevereiro de 1608, e foi um homem inteligente, culto e corajoso.
Tenho que confessar aqui uma coisa: quando vejo um grupo de políticos nas televisões lembro-me sempre do Padre Vieira, e do seu famoso Sermão de Santo António. Pois Padre Vieira achou, como o outro António – o Santo – lá no século treze, que pregar aos homens pouco adiantava, que não lhe ligavam a mínima, e decidiu também ele pregar aos peixes. Estes, sim, bons ouvintes, que ouvem e não falam – logo, não correm o risco de dizer disparates que é o mais que se ouve praí nos dias que correm.
Esse sermão de há mais de trezentos anos podia ter sido feito na semana passada em qualquer parte do mundo, que todas as ideias continuam actuais e frescas como se fosse acabado de escrever.
Deixo aqui uns parágrafos assim à guisa de aperitivo, para quem quiser ler e meditar.
E se quiserem ler mais, que vale a pena, é só ir aqui - é um bocadinho comprido mas vale a pena ler com atenção.
E se calhar depois disto talvez percebam que eu ando um bocado aborrecida e sem paciência, porque sou peixe pequeno farto de ser pescado, e esfolado e comido pelos grandes.
“Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.”
“Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito outras tantas cousas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe: Plebem meam, porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na república, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: Qui devorant. Porque os grandes que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos senão que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam. E de que modo os devoram e comem? Ut cibum panis: não como os outros comeres, senão como pão.”
“A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.
Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não, e com olhardes uns para os outros, vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade! Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos; e os muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros, e isto continuamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras e às escuras, como também fazem os homens.”
E pode ser que um destes dias me voltem o tempo, e a paciência e a inspiração e a disposição, já que o Cocó continua um bocado morcão (e fiquem-se com esta linda rima, pois então!).
E disse.
Posted by vitriolica at 11:59 PM | Comments (8)