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fevereiro 10, 2005
Conto de encantar
Era uma vez um príncipe; alto, garboso, corajoso e bem-falante como se querem os príncipes.
Esse belo príncipe governou durante algum tempo uma província de um reino formado por várias províncias que se tinham unido para melhor resistir no caso de serem atacadas por vizinhos poderosos.
Ora acontece que o príncipe governava a sua província com pulso de ferro no que tocava à plebe, e só os nobres e os cortesãos tinham regalias e poder. Grande parte do povo vivia descontente, outra parte andava iludida porque sempre lhes tinham ensinado que o povo nasce para sofrer e para servir os senhores poderosos e ricos.
Àquele príncipe só uma coisa interessava: manter cheias as muitas arcas da sala do tesouro, com toda a sorte de jóias e metais preciosos. Para isso cobrava ao povo muitos tributos: para terem suas carroças, atravessar pontes, para trabalhar, para tirar água dos poços. Já os nobres pagavam pouco tributo por suas carruagens e caleches, por suas propriedades, e quando deixavam de pertencer ao Conselho do Rei recebiam grandes tenças. E com seus teres e haveres podiam consultar os melhores cirurgiões, ficando o povo, por força de seus poucos bens, limitado a consultar barbeiros e curandeiros.
Um dia o príncipe percebeu que o povo andava descontente e que ele corria o risco de vir a perder o trono.
Acontece que por essa época foi criado o cargo de Magnífico Príncipe, com a responsabilidade de governar os governantes de todas as províncias. Os príncipes das outras províncias acharam que, embora fosse um cargo importante e de grande responsabilidade e muitas honras, era mais importante ainda continuar a governar os bem-amados povos que lhes tinham cabido por destino. A eles estavam ligados por laços de lealdade, pois tinham jurado governá-los e servi-los e respeitá-los enquanto fosse esse o desejo de seus súbditos.
Iria por certo chegar-se a um impasse, não fosse o príncipe ambicioso ter tido uma ideia brilhante... “Pois se eu já não sou o bem-amado do meu povo, vou partir para terras distantes, lá no coração do reino. Serei eu o Magnífico Príncipe de todos os reinos, acumulando assim ainda mais poder e mais riqueza. Vou abandonar o meu povo à sua sorte, e o tempo vai fazê-los esquecer que governei contra eles. Quem sabe, um dia voltarei para ser considerado o seu salvador – nessa altura mudarei o meu nome para Sebastião”
Se bem o pensou melhor o fez, e em todas as visitas que fazia à Capital Geral do Reino sempre se punha em bicos de pés para que todos o notassem e pensassem “Que bela e alta figura, que porte garboso e ar diligente... dará um bom Magnífico Príncipe, e eu poderei continuar governando a minha província sensata e justamente como sempre fiz. E ele parece não desejar outra coisa.” Assim o príncipe se mudou para a Capital Geral do Reino.
Agora no seu cargo de Magnífico Príncipe fez transportar da sua província algumas magníficas tapeçarias e outros objectos preciosos para adornar os aposentos de acordo com a dignidade e importância do seu novo cargo. E fazia grandes discursos e falava de muitas reformas e leis que pretendia que fossem aplicadas a todas as províncias sem excepção, e era no mando muito severo. Apenas se preocupava com o conteúdo da Sala do Tesouro Geral do Reino, e pouca importância dava ao bem-estar do povo daquelas vinte e cinco províncias.
As estradas, mandava-as construir para as caravanas dos comerciantes melhor poderem mercadejar, pois era uma forma de enriquecer os que já tinham de seu, e arrecadar cada vez mais impostos que iriam engordar as já muitas arcas da Sala do Tesouro. E tudo o mais de governo que pensava e fazia e ordenava tinha o mesmo objectivo.
Enquanto assim agira no seu reino não tinha quem se lhe opusesse: os nobres do Conselho comungavam do seu desprezo pelo bem-estar do comum dos súbditos, e do desejo de benesses para si próprios; apenas alguns conselheiros escolhidos pela plebe pensavam de modo diferente, mas esses tinham apenas a voz e não o mando.
Agora as coisas eram diferentes, pois governava conjuntamente com nobres e príncipes das outras províncias, que não eram tão Magníficos mas governavam com os olhos no povo e não tinham no lugar do coração uma moeda de oiro. E esses príncipes não viam com bons olhos tanto interesse por objectos preciosos e honras e privilégios. Para eles o que realmente contava era a estima que recebiam do povo, fruto de seus cuidados com o bem-estar de todos, ricos e menos afortunados, poderosos e gente sem mando.
E começaram de fazer algumas leis que protegiam a plebe dos desmandos do seu Soberano Maior. Pois eles perceberam com seu engenho que aquelas leis que tinham como único fito a riqueza não estavam a dar grande resultado, e só serviam para acabrunhar e oprimir os povos de todas as províncias: pois o mando e o governo são para governar o povo, e não para se governar dele como pensam (e fazem) alguns.
A história acabava aqui, mas uma outra folhinha apareceu, caída não se sabe de onde, trazida pelo vento. Tinha só um parágrafo:
Um dia, um velho tão velho que todos os do reino se lembravam de ter conhecido velho desde que nasceram (e por essa mesma razão era cheio de humildade e sabedoria, já que quem mais sabe mais humilde se sente por perceber que ignora muito mais do que sabe)... esse velho sábio leu os astros que lá de cima tudo observam desde o início dos tempos; e os sinais dos astros eram claros: aquele príncipe era um impostor. Na realidade era um sapo dotado de poderes mágicos que lhe permitiam criar uma ilusão nos seres humanos – ilusão essa que os fazia imaginar um belo e garboso príncipe de voz maviosa onde não havia mais que um insignificante sapo de voz rouca, e de pele viscosa e irritante.
(esqueci-me de copiar o título da história: "O Príncipe que Nunca Deixou de Ser Sapo")
E disse.
Opinadela de vitriolica às fevereiro 10, 2005 11:59 PM
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SÓ UM VELHO PARA DESMACARAR UM SAPO E UM INOCENTE PARA VER QUE O REI VAI NU! TH
Opinanço de: Teodora às fevereiro 11, 2005 01:16 AM
...ai estes príncipes-sapos...também há o "engolir sapos", seja engolir estes sapos principes ou lá o que os valha...grande confusão...
Deixo um abraço como som da minha visita
Morfeu
Opinanço de: morfeu às fevereiro 11, 2005 12:11 PM
Sempre bem e sempre em forma. É a Vi, pois quem mais havia de ser?
Um abração do
Zecatelhado
Opinanço de: zecatelhado às fevereiro 12, 2005 09:25 AM