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março 15, 2005
O Ruben, a Maria João e o Gilberto
São três meninos da minha rua. Todos filhos do mesmo pai e da mesma mãe.
O Ruben tem um problema grave de saúde, mas o pai e a mãe dizem que não podem, que não há dinheiro, que ele tem que se desenrascar sozinho e fazer pela vidita. “Tu sofres, meu menino? Olha, tem paciência, fica-te com o teu sofrimento que a gente é pobrezinhos e não pode fazer nada.”
A Maria João é artista. Gosta de tocar piano, e toda a gente diz que toca muito bem – está farta de ganhar prémios. Trabalha que se desunha para poder ter o piano. E ajuda outros meninos a aprender, e a conhecer outras artes. Mas agora os pais, não conheço muito bem a história e não sei se não lhe deram dinheiro nenhum ou se lhe deram pouco... O que é certo é que ela precisa de pagar uma despesa que até nem é muito grande, mas falta-lhe o dinheiro e nem os vizinhos que gostam tanto de a ouvir: o merceeiro, a senhora da padaria, a dona da loja dos trezentos... se se juntassem todos não custava nada. Se calhar vai ter que ir pra outra terra – onde tratam e respeitam e apoiam melhor os meninos-artistas.
O terceiro filho é o Gil, o Gilbertinho. Rapaz prendado, gabam-no os pais! Ainda o ano passado gastaram um dinheirão pra lhe comprarem umas chuteiras novas, de marca, e um equipamento completo. O rapaz tinha um jogo importante de futebol, e não podia fazer feio... Ele não é lá grande jogador, é mais assim-assim, e nos jogos há confusões volta e meia – ora com árbitros ora com dirigentes, mas também é futebol de bairro, gente de pouco nível, vê-se logo.
E hoje, por causa destas três histórias, saiu discussão no café. Porque sim senhores, que futebol é que é bom, que dá dinheiro e saúde, e que com putos enfezados e meninas prendadas não se ganha dinheiro nem se tira nada de jeito e sei lá que mais... Mentira, berrava a parte contrária, é preciso apoiar quem precisa de se tratar, e as artes é muito importante porque também alegram as vidas de muita gente; o futebol é tudo uma cambada de gente sem nada dentro da carola, e que ganham este mundo e o outro...
Saí de mansinho antes que me pedissem a opinião. Ia “levar pancada” dos dois lados, porque eu acho que de devem apoiar os filhos todos por igual, e um levava só as chuteiras, e o outro fazia os tratamentos, e a menina sempre levava um dinheirito para as despesas. E não iam gostar quando eu dissesse que aqueles pais eram um bocadinho desnaturados e os vizinhos – alguns até tiram bons lucros, que a gente bem percebe – são uns coça-pradentros que bem podiam fazer um bocadinho de mecenato que inda por cima abate nos impostos. Por estas e por outras saí à francesa, e vim pra casa conversar com o Cocó. Desta vez ele até concordou comigo, e passámos uma bela tarde nas lidas domésticas a gozar o solzinho que entrava pela janela.
E disse.
Opinadela de vitriolica às março 15, 2005 12:00 AM
Opinadelas
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Mais uma bela prenda para a gentinha dos blogues. Obrigado por estes contos comadre.
Um abração do
Zecatelhado
Opinanço de: Zé do Telhado às março 15, 2005 12:22 AM