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junho 09, 2005

Livros portugueses com palavras em estrangeiro deviam ter desconto

Ora isso é que deviam!
Que uma mulher abala-se de casa com a Cèlinha a tiracolo pra ir a uma coisa toda cultural, assim num bar do teatro que não é bem teatro a sério mas já é uma coisa muito perto da verdadeira cultura.

E vai e assiste, e foi muito bonito e muito interessante, que até a Cèlinha gostou. Agora que está a começar a ficar crescida começa a apreciar assim assuntos com mais substrato — e já está a ficar mais inteligente que eu (tábem, eu sei que não é coisa muito difícil, mas não precisam fazer essa cara de gozo!).

Bem, eu gostei, ela gostou, e foi muito bonito assistir — ao lançamento do livro da Menina Ana, claro! Se calhar pensavam que eu tava a falar do jogo da bola, ou daqueles programas de cultura de massas da TVI... Ouvi falar o Senhor Luís — que é uma maravilha ouvi-lo, benza Deus —, mais o outro Senhor José Mário Silva que também falou muito bem embora eu não tenha percebido tudo; e a Menina Ana também disse umas palavrinhas mas parece que tava assim um bocadinho nervosa mas nem se notava — eu é que tenho a mania de imaginar coisas porque se fosse eu ali a falar p´ràquela gente toda dava-me logo uma coisinha má.
Que me desculpem os outros oradores, mas o que eu gostei mais foi daquele senhor que tem um nome que parece de bebida alentejana assim tipo licor caseiro, o Senhor Changuito. Pode ter um nome meio esquisito, e tinha um fatinho que faz as pessoas que gostam de se levar a sério não o levarem a sério a ele.
Seja como for, tem um ar mesmo de artista (as tais pessoas sérias diriam "maluco", se calhar...), e é artista de verdade. Leu alguns daqueles textos da Menina Ana com uma coisa que não é bem sentimento como diz a minha vizinha Neuza quando vai ao fados — assim mais com alma, como se quisesse transmitir cã para fora a vida que estava dentro das palavras e das ideias e dos sentimentos. Foi tão bonito que me apetecia trazê-lo a ele em vez do livro — ou melhor, junto com o livro. Assim podia pedir-lhe que me lesse aquelas palavras bonitas enquanto eu tratava da lida da casa (menos da parte do aspirador, que é velho e faz muito barulho); até o Cocó ia ouvir e ficar mais culto, e eu passava a ter verdadeiras tertúlias culturais ao nível do fogão — imaginem só o luxo!

O mais bonito foi que acabou o seu trabalho e foi pra trás do balcão do bar: Changuito-artista/Changuito-barman, ali a aviar copos que nem um senhor. Às vezes ainda me espanto quando vejo estas coisas — porque há muita gente que tem trabalhos assim um pouco mais intelectuais, e pensam que lhe caem os parentes na lama se fizerem uma coisa menos nobre; ou então olham para quem trabalha com as mãos assim com um bocadinho de desprezo, como se essas pessoas fossem menos pessoas ou menos dignas de respeito.
Adiante, que essa gente não interessa nada. O que interessa é que a gente que organizou, e falou naquele evento cultural está toda de parabéns, e mais eu que assisti — sem esquecer a Cèlinha, claro. Pior prò Arnaldo, que não é muito chegado a estas coisas de livros, mas tamém ele tava a trabalhar e teve que fazer o jantar e comê-lo sozinho que bem se amolou.

Voltando ao princípio da coisa, deixa-me então explicar o título desta redacção:
É verdade que eu não percebo tudo o que está escrito em português no livro: assumo sem vergonha, porque uma pessoa não tem culpa de não ter grandes estudos e não compreender o que escrevem os artistas das palavras. Mas lá vou lendo e tirando umas pelas outras, de maneira que acabo por perceber uma parte do que li, e na vez seguinte percebo mais um bocadinho e por aí fora...
A coisa fia mais fino quando começam a aparecer bocadinhos em estrangeiro, e lá fico eu toda atrofiadinha! Ele é o inglês, o italiano, mais o alemão... até o latim, que é uma língua que ouvi dizer que já morreu há uma data de anos; se calhar a Menina Ana não ouviu a notícia, e toca a pôr latim por aqui e por ali.
Ora eu línguas, lembro-me logo duma frase do meu pai, que quando chegavam os turistas ingleses e lhe perguntavam: "Dú iú spike Inglish?", respondia muito alto, pra ver se os camones percebiam melhor: "Eu cá, só português, e mal!". Eu é mais ou menos a mesma coisa — ainda aprendi dois anos de francês no liceu, e mais nas cantigas do Adamo, e do Aznavour, do Bécaud e mais do Brel que esse era belga como o Poirot, mas cantava em francês. Mas no que toca ao resto das línguas, sou analfabeta de pai e mãe.

Por causa disto tudo e das pessoas que não sabem línguas é que eu acho que estes livros que são escritos em português e trazem muita coisa em estrangeiro sem a respectiva tradução deviam ter um desconto, que faz de conta que era prà ajuda do dicionariozinho da respectiva língua.

Bom, fiquei tão encantada com a apresentação do livro e com os amigos que reencontrei (hei-de voltar a este assunto, espero) — além de ser despistada e taralhouca e tar com pressa porque ia jantar com o mano Plácido e a mais a Senhora dele que é uma moçoila muito jeitosa — que acabei por me esquecer de pedir o autografozinho da praxe à Menina Ana.

Vou mas é começar a jogar no Euromilhões a ver se arranjo fundos pra mandar pôr uma cabeça nova, que esta já não tá a dar prò gasto.
E disse.

Opinadela de vitriolica às junho 9, 2005 04:03 AM

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Uma delícia, um verdadeiro piteu esta escrita duma "doméstica", condimentada com verdadeiros ingredientes de prazer!

Opinanço de: th às junho 9, 2005 11:16 AM

Yes!!! inxtrajeiru e tudu qu'é comu quéim dij: ganda malha :)

Agora o tenho a acrescentar é qu'adorei conhecê-la, p'cébe? é girézima, a rica, ficava a noite toda a trocar cromos consigo porque a q'rida inda por cima acaba de m'explicáre quéim é o Changuito, fantástico, 'tá a vêre?

Opinanço de: m. às junho 24, 2005 12:04 PM

Obrigada ao/à Senhor(a Dona) Sebenta, mais à Senhora Dona m. - também gostei muito de conhecê-la, e ver que uma pessoa assim cheia de cultura e intelecto trata de igual para igual com uma simples doméstica como eu, e aposto que também gostou do Senhor Changuito porque ele também tem ar de ter muita cultura e intelecto e sabe ser uma pessoa simples e simpática. E mais uma vez obrigada por escrever coisas tão bonitas a meu respeito :)

Opinanço de: Vi às junho 24, 2005 05:54 PM