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outubro 24, 2005
Dia de celebrar a vida
Apesar de tudo, apesar do raio que ontem fulminou a tua vida, meu sobrinho.
Isso não impede, meu Natalino Maurício, que hoje eu te dê os parabéns por teres nascido faz hoje uma data de anos.
Não sei se já te contei esta história – não tenho tanta idade assim, mas tenho memória de velhota taralhouca...
Naquela noite de há mais de trinta anos o teu pai estava a fazer serão (se não me engano, era de sábado para domingo); a tua mãe estava “para toda a hora”, e para não ficar sozinha em casa veio dormir comigo, que ainda vivia em casa dos avós, no nosso quarto de meninas solteiras.
Fui eu a segunda a saber que tu querias nascer, logo a seguir à tua mãe. Acompanhei-lhe as primeiras dores, no nosso quarto com aquela casa de banho minúscula; ouvi-lhe os primeiros desabafos, bem ao estilo dela. E pela madrugadinha lá fui chamar o avô, que levou a tua mãe ao velho hospital que serve agora de “Colégio Interno” aos noventa anos da avó Máxima (quem sabe ainda se candidata a Presidenta, coisa que está na moda).
Já nessa altura eras um rapaz desembaraçado, e algures por volta das sete telefonaram do hospital: já tinhas nascido, eras menino!!!
Fui a correr (de carro) com o Tio Hipólito a tua casa (não sei porque não telefonámos, mas agora é um bocadinho tarde pra pensar nisso). Batemos à janela do quarto – vantagens do rés-do-chão – e lá veio o teu pai, estremunhado, que tinha acabado de se deitar. Claro que ficou delirante por ter um menino homem, e foi uma festa para toda a família, oh se foi! Parece-me que ainda o estou a ver à janela, como se fosse ontem...
És o único sobrinho que teve a “honra” de me ter como quase-parteira: nos outros, estive sempre longe e vinha a saber da notícia por telefone. De todos, és o único de quem eu tenho uma “história de nascimento”.
Uma pessoa não consegue deixar de pensar nisso no dia de hoje, e de como se fala tanto da morte e de como às vezes quase nos esquecemos de festejar o nascimento e a vida.
Porque quando alguém desaparece todos filosofamos sobre a morte, e porque uns vão de uma maneira e outros de outra. E quando alguém nasce fala-se tão pouco sobre o dom que é a Vida. Em cada aniversário que passa a gente apaga as velas, e canta “Parabéns a Você”, e brinda à saúde – mas nunca ouvi ninguém (nem a mim própria) filosofar sobre o que é a Vida, esse dom único que tem tanto de maravilhoso como de terrível.
Se calhar andamos errados, porque é na Vida que nós temos mão, é a ela que podemos tentar modificar; logo, era sobre ela que devíamos filosofar, e não sobre a morte contra a qual nada podemos.
Hoje apetece-me filosofar sobre a Vida, sobre esse dom extraordinárip que nos é oferecido no momento em que soltamos o primeiro grito. E penso mais na tua Libelinha do que (perdoa esta velha tia) do que no teu pai que ontem partiu para caçar num Alentejo sem fim e sem seca, cheio de coelhos, onde o céu vai ser sempre azul, e onde já deve estar a ensaiar uns duetos com o Caruso, a Callas e sei lá quantos outros.
Penso no milagre de seres pai como eu sou mãe, e que a tua tarefa agora é pegares no teu passado, na mão da tua Cristalina, e juntos repetirem os passos que outras gerações de pais e mães já caminharam para levarem a vossa Libelinha para o Futuro que está à espera dela lá à frente.
A gente sabe que o caminho é duro, sobretudo nos primeiros tempos em que vais sentir (vamos todos) aquela Falta, que é como se fosse um pedaço de nós que foi arrancado antes do tempo. Não é fácil, e a gente pergunta “Porquê comigo?” mas esta pergunta não tem resposta.
Há uma coisa que podemos fazer: cerrar os dentes, dar as mãos e enfrentar a tempestade; não ter medo de cair, que às vezes o vento é forte; mas a gente levanta-se de novo, põe os olhos na Estrela Polar do Futuro, e segue viagem. Tu és forte, corajoso e bem preparado (eu sei, para certas situações ninguém está preparado); tens uma boa companheira de viagem, e sobretudo essa promessa pequenina de futuro e de continuação. Um milagre de vida que tu ajudaste a criar, como tu próprio foste um milagre de vida há trinta e cinco(?) anos. Só tens que pôr os olhos em tudo o que te deu e ensinou essa força da natureza que foi o teu pai. A seguir, deitas tudo por terra e constróis à tua maneira. Sem mais. A parte dele que tinha que ficar já está dentro de ti há muito tempo.
Houve com certeza palavras que foram ditas que preferias ter calado; as que não disseste, e que agora lamentas não ter ousado. Limpa essa lousa, não uses isso para te torturar, para te sentires amargo. Os pais sabem, mesmo o que não é dito; a gente sente.
Segue o exemplo dele, que gostava da Vida, de estar com os amigos, de comer bem, da caça, da sua cantoria. Guarda dele o muito que tinha de bom.
Se ele está nalgum sítio de onde te possa ver, vai querer que vivas, que aproveites todos os momentos bons da vida, que ajudes a Libelinha a transformar-se numa boa rapariga tal como fez de ti um excelente rapaz.
Ontem foi o dia de chorarmos a morte dele; hoje é o dia de celebrarmos a tua vida. Amanhã, vamos conviver com a vida e a morte como em todos os outros dias. Depois de amanhã, é o Futuro.
Perdoa estas filosofas de tia velha, e perdoa que dedique um pouco do sentido destas palavras à vizinha e amiga Valéria que também viu ser-lhe arrancado um pedaço da vida assim sem explicação.
Hoje é o nosso dia de celebrarmos o princípio da tua vida, e de lembrarmos que há dezasseis anos (era terça-feira, lembro-me bem) o avô Máximo foi jogar à sueca e conversar com os amigos para aquele sítio onde os baralhos são sempre novinhos em folha, e há sempre um petisco acabadinho de fazer e um copo limpo para mais um amigo que chega. Essa dor já vai sarando, a gente já se habituou à ausência, é como uma flor que perdeu a cor e o perfume mas continua lá, entre as páginas daquele livro; acredita, a serenidade vai chegar – para todos nós; até lá, temos que saber conviver com a dor. Não adianta querer calá-la, abafá-la, escondê-la. Ela vai estar em cada segundo da nossa vida, mas ao lado dela vamos ter a própria Vida, e o sorriso de uma Libelinha.
Opinadela de vitriolica às outubro 24, 2005 02:02 AM
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Ter uma tia assim acredita que é uma benção do Criador, ouviste moço?
Zecatelhado
Opinanço de: zecatelhado às outubro 24, 2005 11:03 AM
Querida amiga, estou para aqui a chorar e a disfarçar...um grande abraço para a sua família.
Opinanço de: catarina às outubro 24, 2005 02:59 PM
Querida Vi,um beijinho muito grande para todos.Gostei muito,muito das suas palavras e como são reais..a esperança que temos no futuro e naquela vida que de nós depende,ajuda sempre a diluir essa dor que ao princípio nos parece tão insuportável.
Opinanço de: monalisa às outubro 26, 2005 01:41 AM
Eternamente grata!
Valeria
Opinanço de: valeria às outubro 26, 2005 06:11 PM
Obrigada a todos os que partilharam e partilham os momentos menos bons. Um abraço amigo para todos.
Opinanço de: Vi às outubro 29, 2005 12:32 AM