setembro 20, 2006
Furacão / Furaquinho — tese sobre a inteligência racional dos furacões
Quando andava por cima do mar sem dono era um Furacão; agora vai pròs Açores... e o pessoal dos Açores tremeu — que eu tamém tremia se vivesse num daqueles nove montinhos semeados no meio do oceano; chegou aos Açores, e lembrou-se que aquilo já é Portugal — portou-se à altura.
Virou Furaquinho, que é assim um faz-que-é-furacão, uma espécie de Portugal dos Pequeninos em versão furacão.
Finalmente, quando viu que se aproximava da costa portuguesa, deste país pequenino de gente pequenina, pensou "Em Roma, sê romano"... transformou-se, claro, em depressão. Mesmo assim achou que não se aguentaria num país onde ninguém liga nenhuma aos portugueses que lá vivem — mudou a agulha prà Galiza, e acabou por dar de frosques prò Golfo não sei de quê (da Biscaia, se não me engano); aí sim, horizontes largos pra poder morrer com dignidade.
Donde se prova que um furacão é um ser racional.
E disse.
Publicado por vitriolica às 10:00 PM | Comentários (3)
fevereiro 23, 2006
O Poeta, o Músico e o Cantor
Pensa que é já lua cheia
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia
Saia rota subindo a estrada
Inda a noite rompendo vem
A mulher pega na braçada
De erva fresca supremo bem
Canta a rola numa ramada
Pela estrada vai a mulher
Meu senhor nesta caminhada
Nem m'alembra do amanhecer
Há quem viva sem dar por nada
Há quem morra sem tal saber
Velha ardida velha queimada
Vende a fruta se queres comer
A noitinha a mulher alcança
Quem lhe compra do seu manjar
Para dar à cabrinha mansa
Erva fresca da cor do mar
Na calçada uma mancha negra
Cobriu tudo e ali ficou
Anda, velha da saia preta
Flor que ao vento no chão tombou
No Inverno terás fartura
Da erva fora supremo bem
Canta rola tua amargura
Manhã moça nunca mais vem.
Porque foi o primeiro álbum do Zeca que entrou em minha casa, porque o poema, a música e a voz estão cheios de beleza. Estamos na corrente.
E disse.
Publicado por vitriolica às 12:00 AM | Comentários (5)
fevereiro 22, 2006
Canto Moço
Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nós vamos
À procura da manhã clara
Lá no cimo duma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá no cimo duma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos pela noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.
Publicado por vitriolica às 12:00 AM | Comentários (2)
fevereiro 21, 2006
Pão com sonho (em Guimarães)
Durante os meses de Fevereiro e Março, vão ser distribuídos milhares de sacos de pão com dados biográficos e poemas do Zeca.
Isto, porque dias 24 e 25 de Fevereiro, Guimarães recebe os amigos de José Afonso e dá-lhes guarida. Saiba mais aqui ou aqui.
Há muitos sítios onde o Zeca há-de morar sempre.
E disse.
Publicado por vitriolica às 02:20 AM | Comentários (1)
Eu não devia escrever nada sobre o Zeca
E não devia escrever nada, porque não devia ser preciso, pois tá claro!!!
Porquê, pergunta o meu caro leitor? Ora, porque o Zeca devia ser uma referência nacional, assim uma espécie de pessoa-monumento que todos conhecem, admiram e respeitam. E os nossos órgãos de comunicação social deviam todos lembrar o dia em que Portugal e a Música ficaram mais pobres. Que o Zeca foi um português de primeira, mas também um músico dos bons, um divulgador de músicas, de poetas, um poeta.
Por outro lado, ainda há muita gente que não percebe isso, que não gostam de vermelhos, e que confundem a cor do Zeca com a obra dele. Em qualquer outro país do mundo o Zeca era grande, qualquer povo teria orgulho de dizer "Este homem nasceu no mesmo país que eu, escreveu e cantou poemas e canções bonitos na mesma língua em que eu falo todos os dias".
O problema é que o Zeca teve o mesmo azar de dez milhões de pessoas - nasceu no País do Esquecimento e da Ingratidão, da Inveja e da Mesquinhez. O próximo dia 23 devia ser aproveitado para falar dele em letras grandes. Grandes como o homem e o artista que foi.
Cá no meu blog as letras são pequeninas, mas vou entrar na corrente, tal como entrei nesta outra corrente que há dois anos decidiu lembrar os 17 anos sem a presença física do Zeca.
Quero só deixar uma pergunta:
- E para o Zeca, não vai nada?
- Tudo!
E disse.
Publicado por vitriolica às 12:00 AM | Comentários (3)
fevereiro 10, 2006
"Começar de Novo" só pra quem gosta
No sábado que vem vale a pena fazer o sacrifício de ficar em casa (cá pra mim não é sacrifício nenhum, porque é raro sair de casa depois do jantar... gostos!) - pra quem aprecia a Simone brasuca, aquele mulherão baiano com mais de metro e oitenta de altura e vozeirão e talento a condizer.
Se é fã da Simone Bittencourt de Oliveira, zape prà DOIS no próximo sábado lá pela meia-noite e quarenta e cinco e poderá assistir a um espectáculo ao vivo, gravado em Agosto passado. Como brinde, ainda apanha com a voz do Milton Nascimento (conhece a "Travessia"?), Ivan Lins (o próprio "Começar de novo" em pessoa) e Zélia Duncan.
Mais palavras para quê? Quem gosta não vai perder, quem não gosta pode sempre ver a alternativa cultiural da TVI, que a esta hora já deve tar a dar o "Fiel ou infiel" - ou a arte da pouca-vergonha (do apresentador, que manipula as pessoas e as situações com uma habilidade que até mete nojo).
Uma das vantagens de já ser "entradota" é ter assistido ao primeiro espectáculo da Simone em Portugal, lá por '70 e tal. Foi antes da passagem de Nuno Abecassis pela Câmara de Lisboa, e portanto antes de a dita Câmara ter deixado de ceder o Casalinho da Ajuda para a Festa do Avante... No mesmo ano, tive o prazer de me regalar com as presenças de Chico Buarque - e ouvir a "Morena de Angola" em estreia mundial -, MPB4 (pouca gente deve conhecer mas são (eram?) quatro vozes masculinas que cantavam que só (ou)visto, e a Simone, claro. Era ainda uma ilustre desconhecida em Portugal, mas ficou-me no ouvido e sou fã até hoje.
Este sábado, pode tremer a terra ou fazer sol de rachar à meia-noite, que ninguém me tira de casa.
E disse.
Publicado por vitriolica às 12:00 AM | Comentários (1)
julho 15, 2005
373 - perdidamente
Eu quero blogar, blogar perdidamente!
Blogar só por blogar: Hoje... amanhã...
E prà Semana, e prò Mês, prò Ano, eternamente...
Blogar! Blogar! E não chatear ninguém!
Postar? Comentar? Indiferente!...
Responder ou apagar? É mal? É bem?
Quem disser que pode escrever no blog
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Inspiração em cada vida:
É preciso usá-la assim varrida
Pois se Deus nos deu blog, foi pra blogar!
E se um dia hei-de ser deletada e formatada
Que seja de tréquebéques uma abada
Que me saiba perder... pra m'inspirar...
(um soneto cem por cento original de: Felor Bela Empanca)
(a propósito do que veio em consequência de uma redacção, e de umas trocas de comentários, e de coisas que li por aí.)
Que depois de tudo descascado e descaroçado fica só uma pessoa, a vontade de escrever (ou não), o assunto (ou não), a inspiração (ou não), o téculado e o ecrã em branco.
Tudo o mais – mirones, comentários, provocações e trocas de galhardetes, grupos, dores de cotovelo, tréquebéques, cópias, plágios, e sei lá mais o quê – é folclore. Um blog é só um blog, que é assim um sítio onde se escrevem palavras e põem bonecos.
E disse.
Publicado por vitriolica às 12:00 AM | Comentários (3)
julho 12, 2005
ijetudo çiêntificu çobre títalus de belógues peró
va que uma fôrma de um títalu de redá-ssão de belogue pra dar nas vistas na página do uébelogue:
primeirus – deve-de çere todu em minúsculas (letra picanina pròs mais inguenurântes);
çigundus – tem de tere inzáta-mente cincu-enta carácteres(inqueluindo ispá-ssus) qué por mór de hócupáre uma linha inteirinha i óspois o nome do belógue já fica na ôtera linha;
tresseirus – deve-de ser coiza iscandalóza ou de palaverõis ou atão bombástica que é acuáje tudu a mêma coiza i vêm a dáre nu mêmu.
êste istudo foi rializádu pêlo destinto Dótôre Cocó çigundo us mais riguerózus parâmetus da envestigação ssiêntifica e validádu pêlos mais modernos métodos de estudo e afrissão e ôtros aparelhus ténicus de ALTO gabaritu. Fôrem anaziladus melháres de títalus e xigô-se ainda há conqueluzam cas lêteras maiúsqelas tá fóra de móda e é coiza de avòzinhos e ôterus carêtas que na enxergam bem e sam pelinteras ó furrêtas pra gastárem denhêiru a comperar lêntes novas.
Açinádu: Dótôre Cocó – linssenssiádu e com pós-gradeamento em blogologia e variadádes de milho sem transgénicus e nitrofurilhos.
(na alzên-ssia da "Grande" Sôdona Vi que não pressebe náda de métudus çientificos e quem alambou cu trabálhu todo foI cá o esquerávu e a paga é só a rassãozita de milho e maizumas côves de vezimquandu. Mas um dêstes dias vais pagálas tôdas juntas, ó çe vais!)
Publicado por vitriolica às 09:55 PM
derrepente pare-sse que tá tudo cua técula do cápeslóque avariá-da e agente chega ao uébelógue e mal conssé-gue ler os títalus pruque tá todos encavalitá-dus uns inssima dos outros e pra têr um títalu que chama à atenssão só mesmo assim.
NÃO SEI O QUE ME DEU PRA ESCREVER ESTA REDACÇÃO. ASSIM CUMÁSSIM, VOU FAZER A EXPERIÊNCIA E PÔR ESTE ARRAZOADO TODO EM MAIÚSCULAS SÓ PRA VER O EFEITO.
UM DESTES DIAS VOLTO E DIGO MAIS COISAS – EM MINÚSCULAS, PROMETO.
E DISSE.
E SE LHE CUSTOU MUITO LER ISTO, NO "Aqui há mais" NÃO HÁ NADA DE NOVO, SÓ ESTA MESMA REDACÇÃO EM FORMA DE GENTE.
derrepente pare-sse que tá tudo cua técula do cápeslóque avariá-da e agente chega ao uébelógue e mal conssé-gue ler os títalus pruque tá todos encavalitá-dus uns inssima dos outros e pra têr um títalu que chama à atenssão só mesmo assim.
E repeti aqui o título na entrada da redacção, porque não sei se a página da entrada do Uébelógue vai auguentar um titalu destes.
Pois é verdade que tenho andado um bocado arredada destas lides blogantes - "noblesse oblige", diria o Senhor Castelo Branco (que diz isto frase sim frase não, verdade seja dita), - mas não é noblesse nenhuma, e muito menos qualquer espécie de oblige, é mesmo só moleza do calor, e preguiça e falta de inspiração.
E foi tamém um aborrecimentozinho que me tirou a veneta por uns dias; nada de cuidado, é certo, mas o suficiente pra me tirar vontade de escrever, inspiração e outras coisas necessárias a uma blogança de jeito.
Seja como for, aproveito para agradecer a todos:
- os que deixaram palavras amáveis e carinhosas;
- os que continuaram a passar por cá (mais de trezentos por dia, que até uma mulher se espanta!) sabendo que, provavelmente, iam bater com o nariz na cruzeta.
Agora sobre o títalu desta redacção, a verdade é que me faz muita confusão ver tudo em maiúsculas. E a gente quer ler os títulos das redacções dos vizinhos e embaralham-se os olhos porque as letras ficam todas muito juntas; o pior é quando eu às vezes me dá a preguiça de escrever o endereço dum blog no browser e vou logo directa à página do Weblog pra ver se tá lá alguma redacção fresquinha do blog X ou Y ou Z, e no meio daquelas maiúsculas matulonas a gente mal descortina os nomes dos blogs que tão na normal escrita de Maiúscula Mais Minúscula. Eu cá não tenho nada contra as maiúsculas, valha-me Santa Prisca; menos ainda contra as minúsculas. Só que, verdade verdadinha, tanta maiúscula atrapalha.
Antigamente não era assim, mas de repente parece que tá toda a gente com prisão de técula de quépeslóque....
O Cocó, que é mauzinho todos os dias, acha que é (má) influência dos noticiários que nos gritam vezes sem conta o título da notícia que vai dar daí a meia hora; e às vezes vai-se a ver e a notícia é uma caganita daquelas que os jornalistas de antigamente chamavam fait-divers (ai, Vi, que mulher culta que estás hoje, que até escreves palavras em estrangeiro!). E vai daí, toca tudo a berrar aos quatro ventos os títulos das suas notícias na Praça Central do Weblog.
Mas isto, claro, esta má-língua toda é coisas do Cocó. Eu cá acho que cada um(a) tem o direito de usar todas as maiúsculas que quiser – onde, quando, e quantas vezes lhe apetecer; senão, que raio de democracia era esta? Foi pra limitar o uso das maiúsculas que os valerosos Capitães d'Abril fizeram aquela (abençoada) noitada?
Não sei o que me deu pra escrever esta redacção. Assim cumássim, vou fazer a experiência e pôr este arrazoado todo em maiúsculas só pra ver o efeito.
Um destes dias volto e digo mais coisas – em minúsculas, prometo.
E disse.
Publicado por vitriolica às 07:16 PM | Comentários (4)
junho 13, 2005
Para a "Menina do Sopro"
Dedicadas à menina M&M umas quadrinhas que fiz a Santo António nesta noite em que se festeja o mais português dos santos.
Pena que não haja mais gente a imitá-lo: era Franciscano, e por isso fez voto de pobreza; e era tão sábio e inteligente que o próprio S. Francisco o chamou a Itália para ensinar os frades franciscanos.
Santo António de Lisboa
és milagreiro – e careca!
Melhora a vida do povo,
faz um milagre, co'a breca.
Fui rezar à tua igreja
para pedir as melhoras
se o meu Arnaldo me beija
agradeço a toda a hora.
Curaste-me num instante
melhor que qualquer remédio
vê se melhoras a vida
que a pobreza é um tédio.
Governam, fazem descaso,
pois não querem nem saber
sofre o povo, vota o povo,
para eles bem viver.
Eu sei, muito te apreciam
e te estimam e veneram
ver-nos todos Franciscanos
é o que eles mais esperam.
Santo António, rico Santo,
um milagre já fizeste:
no que toca às reformas
qualquer coisita mexeste.
Tamos menos desiguais,
a ver se a coisa prossegue
Mas há muito que fazer,
meu Santinho, não sossegue!...
E disse.
Publicado por vitriolica às 12:00 AM | Comentários (3)
junho 09, 2005
Livros portugueses com palavras em estrangeiro deviam ter desconto
Ora isso é que deviam!
Que uma mulher abala-se de casa com a Cèlinha a tiracolo pra ir a uma coisa toda cultural, assim num bar do teatro que não é bem teatro a sério mas já é uma coisa muito perto da verdadeira cultura.
E vai e assiste, e foi muito bonito e muito interessante, que até a Cèlinha gostou. Agora que está a começar a ficar crescida começa a apreciar assim assuntos com mais substrato — e já está a ficar mais inteligente que eu (tábem, eu sei que não é coisa muito difícil, mas não precisam fazer essa cara de gozo!).
Bem, eu gostei, ela gostou, e foi muito bonito assistir — ao lançamento do livro da Menina Ana, claro! Se calhar pensavam que eu tava a falar do jogo da bola, ou daqueles programas de cultura de massas da TVI... Ouvi falar o Senhor Luís — que é uma maravilha ouvi-lo, benza Deus —, mais o outro Senhor José Mário Silva que também falou muito bem embora eu não tenha percebido tudo; e a Menina Ana também disse umas palavrinhas mas parece que tava assim um bocadinho nervosa mas nem se notava — eu é que tenho a mania de imaginar coisas porque se fosse eu ali a falar p´ràquela gente toda dava-me logo uma coisinha má.
Que me desculpem os outros oradores, mas o que eu gostei mais foi daquele senhor que tem um nome que parece de bebida alentejana assim tipo licor caseiro, o Senhor Changuito. Pode ter um nome meio esquisito, e tinha um fatinho que faz as pessoas que gostam de se levar a sério não o levarem a sério a ele.
Seja como for, tem um ar mesmo de artista (as tais pessoas sérias diriam "maluco", se calhar...), e é artista de verdade. Leu alguns daqueles textos da Menina Ana com uma coisa que não é bem sentimento como diz a minha vizinha Neuza quando vai ao fados — assim mais com alma, como se quisesse transmitir cã para fora a vida que estava dentro das palavras e das ideias e dos sentimentos. Foi tão bonito que me apetecia trazê-lo a ele em vez do livro — ou melhor, junto com o livro. Assim podia pedir-lhe que me lesse aquelas palavras bonitas enquanto eu tratava da lida da casa (menos da parte do aspirador, que é velho e faz muito barulho); até o Cocó ia ouvir e ficar mais culto, e eu passava a ter verdadeiras tertúlias culturais ao nível do fogão — imaginem só o luxo!
O mais bonito foi que acabou o seu trabalho e foi pra trás do balcão do bar: Changuito-artista/Changuito-barman, ali a aviar copos que nem um senhor. Às vezes ainda me espanto quando vejo estas coisas — porque há muita gente que tem trabalhos assim um pouco mais intelectuais, e pensam que lhe caem os parentes na lama se fizerem uma coisa menos nobre; ou então olham para quem trabalha com as mãos assim com um bocadinho de desprezo, como se essas pessoas fossem menos pessoas ou menos dignas de respeito.
Adiante, que essa gente não interessa nada. O que interessa é que a gente que organizou, e falou naquele evento cultural está toda de parabéns, e mais eu que assisti — sem esquecer a Cèlinha, claro. Pior prò Arnaldo, que não é muito chegado a estas coisas de livros, mas tamém ele tava a trabalhar e teve que fazer o jantar e comê-lo sozinho que bem se amolou.
Voltando ao princípio da coisa, deixa-me então explicar o título desta redacção:
É verdade que eu não percebo tudo o que está escrito em português no livro: assumo sem vergonha, porque uma pessoa não tem culpa de não ter grandes estudos e não compreender o que escrevem os artistas das palavras. Mas lá vou lendo e tirando umas pelas outras, de maneira que acabo por perceber uma parte do que li, e na vez seguinte percebo mais um bocadinho e por aí fora...
A coisa fia mais fino quando começam a aparecer bocadinhos em estrangeiro, e lá fico eu toda atrofiadinha! Ele é o inglês, o italiano, mais o alemão... até o latim, que é uma língua que ouvi dizer que já morreu há uma data de anos; se calhar a Menina Ana não ouviu a notícia, e toca a pôr latim por aqui e por ali.
Ora eu línguas, lembro-me logo duma frase do meu pai, que quando chegavam os turistas ingleses e lhe perguntavam: "Dú iú spike Inglish?", respondia muito alto, pra ver se os camones percebiam melhor: "Eu cá, só português, e mal!". Eu é mais ou menos a mesma coisa — ainda aprendi dois anos de francês no liceu, e mais nas cantigas do Adamo, e do Aznavour, do Bécaud e mais do Brel que esse era belga como o Poirot, mas cantava em francês. Mas no que toca ao resto das línguas, sou analfabeta de pai e mãe.
Por causa disto tudo e das pessoas que não sabem línguas é que eu acho que estes livros que são escritos em português e trazem muita coisa em estrangeiro sem a respectiva tradução deviam ter um desconto, que faz de conta que era prà ajuda do dicionariozinho da respectiva língua.
Bom, fiquei tão encantada com a apresentação do livro e com os amigos que reencontrei (hei-de voltar a este assunto, espero) — além de ser despistada e taralhouca e tar com pressa porque ia jantar com o mano Plácido e a mais a Senhora dele que é uma moçoila muito jeitosa — que acabei por me esquecer de pedir o autografozinho da praxe à Menina Ana.
Vou mas é começar a jogar no Euromilhões a ver se arranjo fundos pra mandar pôr uma cabeça nova, que esta já não tá a dar prò gasto.
E disse.
Publicado por vitriolica às 04:03 AM | Comentários (3)
abril 18, 2005
Reportagem fotográfica – exclusivo mundial
A verdade é que mais ninguém se lembrou de registar o momento... e eu lembrei-me por acaso.
Como já foi dito, a fotógrafa e a cãimbra não valem o caracol, mas um documento histórico é um documento histórico e aqui fica registado, para a posteridade, este momento histórico do lançamento do segundo livro do premiado autor Senhor Luís Ene, e primeiro livro da Editora leituras.com.net.
No dia 13, peregrinação ao Santuário da FNAC e primeiro registo da existência do Santo Graal.

No dia 17, o registo histórico propriamente dito; à esquerda vê-se um Senhor Importante cujo nome não me ocorre agora (tamém não servia pra nada porque está irreconhecível), logo seguido do Prestigiado Autor, mais um Senhor Importante (ver comentário ao primeiro Senhor Importante), e logo a seguir o Prestigiado Editor.

Em segundo plano, no canto direito, um piano que não foi usado mas ajuda a compor a sala; na parede, três das obras de arte que estavam em exposição. A que me agradou mais não aparece na foto: estava aqui do lado direito, a do eléctrico, mais perto da porta. Se alguém quiser oferecer-ma, prometo que não vou ofender ninguém e aceito o presente.

E disse.
Publicado por vitriolica às 12:23 AM | Comentários (3)
Reportagem em diferido
Pois as fotografias estão uma grande porcaria, porque a fotógrafa nãom vale um caracol, e uma cãimbra de telemóvel é o que é.
O lançamento foi muito melhor do que as imagens mostram, pois não teve nada tremido nem desfocado.
Havia dois senhores assim um bocado importantes (é pena mas varreram-se-me os nomes deles) que disseram coisas muito importantes e muito interessantes sobre as histórias do Senhor Luís. E, claro, o autor – Senhor Luís Ene, e o editor – Senhor Paulo Querido.
E estão todos de parabéns: os senhores importantes por terem tido a oportunidade de ler aquelas palavras tão bem escritas, aquelas histórias que são um achado, tão cheias de pequenas-grandes surpresas; o Senhor Luís, por ter esse dom maravilhoso de saber usar assim as palavras; e o Senhor Paulo, por ter tido a oportunidade – e a sabedoria de a aproveitar – de editar uma obra destas.
Havia também a assistência, que era quase tudo gente dos blogs. Ninguém quis fazer perguntas nem comentários depois das "faladuras", mas ficou toda a gente ali pela livraria ("Ler Devagar", para quem ainda não sabe), vendo os livros, e conversando uns com os outros – sobre livros e não só.
O fim da noite foi num bar ali perto que parecia assim a casa duma velhota muito velhota, meia maluquinha, daquelas a quem chamam "excêntrica": é que as paredes estão todas decoradas com canecas, bonecos, tudo o que é cacareco de loiça e coisa do género. Estávamos no "Pavilhão Chinês", e para mim, que não saía assim à noite há muitos anos, foi uma animação. Ficámos ali sentadinhos à conversa, tentando não ligar à música que era uma assim músicas interessantes, mas com o acrescento daqueles tun-tun-tuns a fazer de conta que é moderno, e que transforma músicas e canções bonitas em porcarias barulhentas.
Lembro-me que falei sobretudo com a menina Cris, e com o menino Fernando (informação gentilmente fornecida pela nossa Grande Dama - um muito obrigada, minha boa amiga!) que estava com ela – desculpe não me lembrar do nome nem do blog, se me der a informação eu corrijo este bocadinho. Ele sabe muito de música, pelo que eu percebi, de modos que fiquei toda contente por saber que ele também é fã da Elis Regina. E também gosto de alguns livros de que a menina Cris também gosta, e afinal é assim que a gente faz amigos, quando encontra pessoas com gostos e opiniões parecidos com os nossos.
Foi bom reencontrar e conversar com a nossa Grande Dama – menina Catarina, que me apresentou a menina Ruiva, um bocadinho envergonhada como eu quando era mais nova, mas que me pareceu um doce de pessoa. E também com o Senhor Carlos, que gosto muito de rever, e com quem é sempre bom conversar (mesmo que seja só um bocadinho).
Resumindo, concluindo e baralhando: foi bom sair de casa, foi melhor ainda assistir à apresentação do livro, e sobretudo, rever gente boa, conhecer mais gente boa, e poder conversar com todos.
A foto-reportagem tá uma porcaria, mas vem já a seguir.
E disse.
Publicado por vitriolica às 12:00 AM | Comentários (5)
abril 09, 2005
Crítica Literária
Tem razão, caro leitor/visitante: o meu novo cargo de colaboradora/redactora do Café-Expresso Tadechuva deu-me a volta ao miolo. É verdade, estou convencida de que sou uma pessoa importante – e com toda a razão, pois se até assino uma coluna numa publicação semanal!
Já me estou a imaginar a recusar os convites insistentes e repetidos do Doutor Moniz – que digo, da Endemole em peso! – para participar na próxima Quinta das Nulidades, o assédio das vendedeiras da próxima vez que me deslocar em visita oficial e de estado ao tripeiro Mercado do Bolhão, as disputas e tricas dos costureiros para me emprestarem os trapitos de alta costura – eu, que sou mais do tipo "Boutique Alcofa"... enfim, já estou a antecipar o fardo que vai ser transportar o peso da fama (noblesse oblige, como diz o outro quase tão famoso como eu vou ficar muito em breve). Isto sem falar nas ofertas de contratos milionários pra vender jóias e cachuchos nos TêvêShópes, promover colchões que dão saúde e curam todos os males do esqueleto, e recomendar trens de cozinha que tratam das refeições sozinhos, e só produzem refeições saudáveis, equilibradas e (quase) sem calorias. Tudo isto, claro, sempre na companhia indispensável e imprescindível do meu muso, o meu "compagnon de route" (aprendi esta com o Docteur Máriô Soarez), o meu bem-amado Cocó. (Esquecia-me das longas sessões de autógrafos em hipermercados, grandes momentos de comunhão com o Povo, esse povo do qual eu (ainda não) saí, e que me devolverá em atenção e carinho a minha dedicação à nobre arte da escrita blog-jornalística)
Mas desculpem, caros visitantes/leitores, ter-me deixado arrastar pelo meu sonho secreto de glória e fama e reconhecimento público – sonho que em breve, muito em breve, se vai tornar realidade graças à sensibilidade, inteligência, perspicácia e bom gosto do Senhor ZecaTelhado, que pôs em acção todas as suas melhores qualidades para descobrir o meu talento natural, o meu dom da escrita, toda esta qualidade cronístico-literária que avassala o meu ser...
Voltando ao tema central do dia, que é como quem diz ao cherne da questão, pois vamos lá então à criticazinha, que é como quem diz, um por cento de crítica literária. Eu explico:
O Senhor Escritor Luís Ene, não contente em escrever mil histórias e +1, resolveu agora (já aqui há tempos, aliás) pô-las em livro. Eu ainda não tive oportun$dade de comprá-lo mas não perdi pela demora, porque pude "provar um aperitivo" de dez histórias (o tal um por cento); devo dizer que gostei, melhor dizendo, gostei muito, porque são histórias bem curtinhas, que a gente lê num abrir e piscar de olhos – mesmo!
Essas histórias não são nada parecidas com as que estou habitada a ler, que eu é mais policiais e coisa assim ligeiras, que não obrigam a pensar nem nada.
Agora as do Senhor Luís, sendo bem pequenininhas, são cheias de cantos e recantos, como aquelas caixinhas antigas, pequeninas mas "com segredo" – às vezes uma gavetinha secreta, outras vezes uma caixinha mais pequena e muito bem escondida, mas sempre com uma surpresa lá dentro.
Só posso aconselhar os meus visitantes/leitores (e vice-versa) a fazerem o mesmo que eu: vão até à página de apresentação, leiam a dita apresentação, e lá no finzinho da página cliquem no linque para o extracto de 20 páginas em formato PDF. Guardem, abram e leiam, e verão que ficam como eu: cheios de apetite para ler as outras novecentas e noventa e uma. Não devem estar todas neste primeiro volume, mas a gente tem a esperança de que eles cresçam e se multipliquem.
Ah! Por cima do linque prò "aperitivo" há outro que leva direitinho prà loja do nosso "senhorio", onde podem comprar o livro com direito a envio pelo correio, que nem é preciso sair de casa pra comprar. Aproveitem, que não se vão arrepender. Palavra de Vi.
E disse.
Publicado por vitriolica às 12:00 AM
abril 02, 2005
Hoje ofereça um livro a uma criança
É esta a minha "mensagem do dia", que é um dia muito especial e muito importante: faz hoje duzentos anos que nasceu Hans Christian Andersen, a quem chamam o "pai da literatura infantil".
Quem não vibrou com a história d'A Sereiazinha, quem não se derreteu com a paixão d'O Soldadinho de Chumbo, quem não ficou com os dedos gelados com A Menina dos Fósforos, quem não se sentiu, pelo menos uma vez na vida, um verdadeiro Patinho Feio?
Foram muitas e bonitas as histórias que o Senhor Andersen nos deixou – só contos de fadas, foram mais de cento e cinquenta. E talvez o meu visitante não saiba, mas ele esteve em Portugal (em Sintra e noutros lugares), e não só gostou mas também escreveu sobre essa viagem.
Há não sei quantos anos, esta data foi escolhida para ser o Dia Internacional do Livro Infantil. Por tudo isso vale a pena oferecer hoje ao(s) seu(s) filho(s), se é pai ou mãe, um livrinho. Se não é, ofereça a um sobrinho, um afilhado, ao filho da empregada ou da vizinha. É importante mostrar aos mais novos a magia que se cria de cada vez que abrimos um livro.
E já agora aproveite, e explique (aos que já viram o filme) que o autor da história d'A Sereiazinha não foi o senhor Walt Disney. Que eu já ouvi alguns meninos dizerem este enorme disparate. Viram o filme, mas não sabem que há mais de cem anos que a história foi escrita: claro, ninguém lhes explicou!
Ora aí tem uma boa desculpa para ir ao centro comercial! Dá as voltas do costume, e antes de sair entre numa livraria e deixe a criancinha folhear, mexer, e no fim, escolher um (ou dois... ou mais...!)
E disse.
Publicado por vitriolica às 12:00 AM | Comentários (3)
fevereiro 11, 2005
Conto de quê?...
Esta é a verdadeira história da história aqui por baixo:
Um destes dias encontrei um livro, numa daquelas lojas de livros usados. Era um livro de contos. Como o Cocó tem alma de puto, li-lhe as histórias, pois claro. O bicho gostou de todas, mas houve uma que ele adorou; de tal maneira que tenho de lha reler todos os dias, de há uma semana para cá. Só tenho pena de o livro não indicar o nome do autor.
Nos meus passeios pela internet encontrei umas coisas que me pareceram familiares, até que descobri: eram a versão 2005 deste conto de outras eras. Ora leiam aqui, mas depois não se esqueçam de comparar com isto e com isto .
E disse.
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fevereiro 10, 2005
Conto de encantar
Era uma vez um príncipe; alto, garboso, corajoso e bem-falante como se querem os príncipes.
Esse belo príncipe governou durante algum tempo uma província de um reino formado por várias províncias que se tinham unido para melhor resistir no caso de serem atacadas por vizinhos poderosos.
Ora acontece que o príncipe governava a sua província com pulso de ferro no que tocava à plebe, e só os nobres e os cortesãos tinham regalias e poder. Grande parte do povo vivia descontente, outra parte andava iludida porque sempre lhes tinham ensinado que o povo nasce para sofrer e para servir os senhores poderosos e ricos.
Àquele príncipe só uma coisa interessava: manter cheias as muitas arcas da sala do tesouro, com toda a sorte de jóias e metais preciosos. Para isso cobrava ao povo muitos tributos: para terem suas carroças, atravessar pontes, para trabalhar, para tirar água dos poços. Já os nobres pagavam pouco tributo por suas carruagens e caleches, por suas propriedades, e quando deixavam de pertencer ao Conselho do Rei recebiam grandes tenças. E com seus teres e haveres podiam consultar os melhores cirurgiões, ficando o povo, por força de seus poucos bens, limitado a consultar barbeiros e curandeiros.
Um dia o príncipe percebeu que o povo andava descontente e que ele corria o risco de vir a perder o trono.
Acontece que por essa época foi criado o cargo de Magnífico Príncipe, com a responsabilidade de governar os governantes de todas as províncias. Os príncipes das outras províncias acharam que, embora fosse um cargo importante e de grande responsabilidade e muitas honras, era mais importante ainda continuar a governar os bem-amados povos que lhes tinham cabido por destino. A eles estavam ligados por laços de lealdade, pois tinham jurado governá-los e servi-los e respeitá-los enquanto fosse esse o desejo de seus súbditos.
Iria por certo chegar-se a um impasse, não fosse o príncipe ambicioso ter tido uma ideia brilhante... “Pois se eu já não sou o bem-amado do meu povo, vou partir para terras distantes, lá no coração do reino. Serei eu o Magnífico Príncipe de todos os reinos, acumulando assim ainda mais poder e mais riqueza. Vou abandonar o meu povo à sua sorte, e o tempo vai fazê-los esquecer que governei contra eles. Quem sabe, um dia voltarei para ser considerado o seu salvador – nessa altura mudarei o meu nome para Sebastião”
Se bem o pensou melhor o fez, e em todas as visitas que fazia à Capital Geral do Reino sempre se punha em bicos de pés para que todos o notassem e pensassem “Que bela e alta figura, que porte garboso e ar diligente... dará um bom Magnífico Príncipe, e eu poderei continuar governando a minha província sensata e justamente como sempre fiz. E ele parece não desejar outra coisa.” Assim o príncipe se mudou para a Capital Geral do Reino.
Agora no seu cargo de Magnífico Príncipe fez transportar da sua província algumas magníficas tapeçarias e outros objectos preciosos para adornar os aposentos de acordo com a dignidade e importância do seu novo cargo. E fazia grandes discursos e falava de muitas reformas e leis que pretendia que fossem aplicadas a todas as províncias sem excepção, e era no mando muito severo. Apenas se preocupava com o conteúdo da Sala do Tesouro Geral do Reino, e pouca importância dava ao bem-estar do povo daquelas vinte e cinco províncias.
As estradas, mandava-as construir para as caravanas dos comerciantes melhor poderem mercadejar, pois era uma forma de enriquecer os que já tinham de seu, e arrecadar cada vez mais impostos que iriam engordar as já muitas arcas da Sala do Tesouro. E tudo o mais de governo que pensava e fazia e ordenava tinha o mesmo objectivo.
Enquanto assim agira no seu reino não tinha quem se lhe opusesse: os nobres do Conselho comungavam do seu desprezo pelo bem-estar do comum dos súbditos, e do desejo de benesses para si próprios; apenas alguns conselheiros escolhidos pela plebe pensavam de modo diferente, mas esses tinham apenas a voz e não o mando.
Agora as coisas eram diferentes, pois governava conjuntamente com nobres e príncipes das outras províncias, que não eram tão Magníficos mas governavam com os olhos no povo e não tinham no lugar do coração uma moeda de oiro. E esses príncipes não viam com bons olhos tanto interesse por objectos preciosos e honras e privilégios. Para eles o que realmente contava era a estima que recebiam do povo, fruto de seus cuidados com o bem-estar de todos, ricos e menos afortunados, poderosos e gente sem mando.
E começaram de fazer algumas leis que protegiam a plebe dos desmandos do seu Soberano Maior. Pois eles perceberam com seu engenho que aquelas leis que tinham como único fito a riqueza não estavam a dar grande resultado, e só serviam para acabrunhar e oprimir os povos de todas as províncias: pois o mando e o governo são para governar o povo, e não para se governar dele como pensam (e fazem) alguns.
A história acabava aqui, mas uma outra folhinha apareceu, caída não se sabe de onde, trazida pelo vento. Tinha só um parágrafo:
Um dia, um velho tão velho que todos os do reino se lembravam de ter conhecido velho desde que nasceram (e por essa mesma razão era cheio de humildade e sabedoria, já que quem mais sabe mais humilde se sente por perceber que ignora muito mais do que sabe)... esse velho sábio leu os astros que lá de cima tudo observam desde o início dos tempos; e os sinais dos astros eram claros: aquele príncipe era um impostor. Na realidade era um sapo dotado de poderes mágicos que lhe permitiam criar uma ilusão nos seres humanos – ilusão essa que os fazia imaginar um belo e garboso príncipe de voz maviosa onde não havia mais que um insignificante sapo de voz rouca, e de pele viscosa e irritante.
(esqueci-me de copiar o título da história: "O Príncipe que Nunca Deixou de Ser Sapo")
E disse.
Publicado por vitriolica às 11:59 PM | Comentários (3)
novembro 05, 2004
Da utilidade da revista Maria
Não costumo comprar a revista “Maria” nem outras do género. Como sou uma mulher do contra, não gosto nada das “revistas femininas” – cá por mim as revistas não têm sexo (quer dizer, revistas “masculinas” ou “femininas”), e essas coisas do tipo “Faça-o passar uma noite das Arábias” e outras do género são úteis, sobretudo, aos donos da revista – devem ajudar a vender bués. Leio a “Visão”, e gosto muito dos artigos da “Visãozinha”, como eu chamo à “Visão Júnior”; é claro que não leio tudo, e há coisas que não percebo e passo à frente, mas o que leio ajuda-me a conhecer e compreender coisas da nossa vida actual.
Sou sobretudo uma mulher prática, e as revistas “femininas” vendem mais é sonhos de fantasia, como se pudéssemos todas ter o corpo da Nayma, cantar como a Teresa Salgueiro, cozinhar como a Dona Maria de Lourdes Modesto, receber convidados como a Dona Isabel II de Inglaterra, ter o talento da Dona Eunice Muñoz, usar as baixelas do Palácio de Queluz e por aí fora.
De maneiras que eu cá tenho os meus sonhos mas são sonhos acordados, com os pés no chão, e não têm nada a ver com essas fantasias, esses mundos que não estão ao alcance de ninguém (vejam a família real do Mónaco, os Kennedy, a pobre herdeira do Onassis e outros casos que tais – mesmo havendo mundos e fundos, falta sempre muita coisa).
Tudo isto vem a propósito de eu ter percebido, finalmente, para que serve a revista Maria.
‘Tava eu então aqui muito sentadinha no sofá (incharpe nas costas, mantinha nas pernas e a Neteb - uma das minhas duas gatas, a cuja tem um irmão que é o Seti e uma “mana” adoptiva que é a Teti – enroscadinha ao lado), acabando de crochetar um xaile de verão. Não se espantem, é que não o acabei em devido tempo, e quero começar uma mantinha de inverno; e decidi que não começava obra nova enquanto não acabasse o que está começado, senão qualquer dia perco-lhe o rasto, perco-lhe a receita, e nem xaile de verão nem manta de inverno...
...sentadinha no sofá, às voltas com as voltas do croché, e a pensar cá com os meus botões: “Vi, rapariga, tu tens esse vício da leitura, e não gostas de estar num sítio sem fazer nada... Amanhã vais até Beja, e podes ter que ficar assim à espera num sítio qualquer ou coisa parecida. Vai daí acabas por entrar num café e pedir uma bica. E tu não gostas nada de estar sentadinha no café a olhar prò ar. Logo, era melhor levares uma coisinha pra ler!”
“Pois é! Devia-de, devia! Ai, mas um livro não dá jeito nenhum, porque tem que caber na mala – se não couber, poiso-o em qualquer lado e esqueço-me lá dele... Só se for uma revista. É isso, ainda não acabei de “papar” a Visão de ontem.”
“Mas então vem outra vez o problema do tranporte: fica meia de fora na mala, toda dobrada e vincada, uma porcaria, blheggg! Ainda se fosse picanina, maneirinha – olha, assim como a "Maria". É isso, uma "Maria" é que dava jeito!”
Por isso, companheiro de Encontro Blogosférico, se amanhã virem num café de Beja uma mulher de meia-idade no seu fatinho saia-e-casaco-de-encontros-de-blogs-e-outros-eventos-sociais, óculos de lentes progressivas encavalitados no (bem visível) nariz e sentadinha num café a tomar uma bica enquanto lê atentamente a revista Maria, não há nada que enganar: sou Euzinha da Silva, ao vivo e a cores, a descobrir o mundo maravilhoso das revistas femininas tamanho de bolso.
E disse.
Publicado por vitriolica às 11:55 PM | Comentários (1)
outubro 25, 2004
Estreia mundial: Vi fornece serviço (quase) público
Pois é, sempre a bem da Cultura e da Nação, o Corpo Redactorial (Vi + Cocó) deste blog reuniu em Assembleia Geral frente ao monte de batatas em via de descasque. Após um animado debate de ideias sempre no mais estrito cumprimento das regras democráticas, deliberou, por unanimidade e aclamação, a aprovação das seguintes medidas, que serão implementadas de imediato sem necessidade de aprovação superior de qualquer organismo de tutela ou quaisquer outras entidades cuja única vocação seja meter o bedelho ou amandar bitaites e/ou bocas foleiras:
1. O fornecimento diário e gratuito de um naco de verdadeira Cultura Popular Portuguesa sob a forma de provérbio (ou adágio, anexim, ditado, dito, máxima, rifão...) – que já estava em Versão Beta há alguns dias, no canto superior direito deste nosso espaço electrónico – e que passa oficialmente, a partir de hoje, a Versão 0.0.0.1.¾;
2. a inclusão de uma caixa de texto que permite procurar, de forma imediata porém rigorosa, o significado de qualquer palavra no “tira-teimas” da Priberam – Língua Portuguesa On-Line;
3. a afixação de um autedor de apoio à leitura gratuita nas Bibliotecas e Estabelecimentos Correlativos e/ou Afins, coisa que a União Europeia devia fazer - mas não faz -, e que os nossos governantes deviam fazer - mas não fazem -, mas como a “Dona U. E.” parece que só quer saber de economias e não se importa que as pessoas leiam pouco e o nosso governo baixa as orelhas (para bom entendedor...), cá a Vi dá uma de mecenato e apoia, conforme pode, a petição que todos os que amam os livros DEVEM assinar – JÁ!
Esse apoio traduzir-se-á na afixação do supracitado autedor – o qual contém um linque para a imagem a cores e em tamanho real que pode ser impressa e colada ao lado da tal bandeira portuguesa que ainda não se descolou do vidro do carro ou noutros locais de assinalável visibilidade -, e do linque para a outrossim já nomeada petição.
4. Um outro linque para o magnífico, e em boa hora, quiçá atempada e pertinentemente lançado Campeonato Nacional da Língua Portuguesa, no qual entusiasticamente exortamos todos os digníssimos passantes barra leitores barra visitantes a participar - quer pelo indubitável enriquecimento linguístico proporcionado, quer pelos magníficos, valiosos e aliciantes prémios a auferir, quer ainda pelas incontáveis horas de prazer e saudável entretenimento familiar que certamente proporcionará.
E boa sorte a todos, e que vença o melhor (e que esse melhor se chame Cocó, que pretende conhecer melhor a excelsa cultura do Antigo Egipto e debruçar-se reverentemente sobre os papiros e palimpsestos da nova Biblioteca de Alexandria).
O corpo redactorial considera as medidas ora tomadas como de verdadeiro e legítimo serviço público, um autêntico Mecenato Cultural ao abrigo de cuja lei vai desde já requerer - respeitosa, porém veementemente - ao ministro Parvalhão Félicse a respectiva redução no IRS, IRC, não olvidando o MSN, ICQ e outros que oportunamente nos ocorram (desde que dentro dos respectivos prazos legais) – JÁ!
Assinado
Doutor Cocó e Senhora Dona Vi
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outubro 18, 2004
Saio do meio da minha valente constipação por uma boa causa
Ando pràqui da cama para o sofá, arrastando-me conforme posso – é que a constipação que tomou conta de mim pesa pra caramba, e estou mesmo derreada. Mas quero recomendar a todos vós um programa cultural de alto nível, muito melhor que o futuro concurso da Sic, o Campeonato da Língua Portuguesa.
Aqui não é preciso gastar um dinheirão a comprar o Expresso, um jornal pesadíssimo e com informação a mais – eu cá só consigo ler um por mês, imaginem em sete dias...
Basta ligar para a TVI, à hora da Quinta das Celebridades, e ouvir/apreciar pérolas como esta: “Estão a acabar de construir o habitat do cão”. Pois não se esqueçam, gente, se quiserem dar uma de alta intelectualidade, nunca mais digam “Vou para casa”, ou “Tenho que ir arrumar a casa”. Isso é linguagem de gente ignorante, sem chique nem pédigri. Se querem ser gente digna de poder ir parar a uma Quinta de Gente Célebre (!!!???), não digam casa, nem casota, nem habitação – digam “habitat”.
Eu cá gostava de saber se o senhor comentador tirou aquela palavra da sua própria cabeça (e que cabeça!...) ou se estava a ler um texto preparado e escrito por alguém.
Dei-me à maçada de me arrastar pelo meu habitat para ir consultar o Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora, 8ª Edição), que diz o seguinte:
(Assisti àquele alto momento da cultura televisiva porque a Cèlinha está a ver novelas e zapa nos intervalos – obrigada, querida filha!)
E disse.
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julho 24, 2004
Paredes Mestre

Saímos da estiagem, eu mais o Cocó, porque um valor bem alto se alevanta.
Queremos deixar a nossa homenagem a um Homem.
Mestre Carlos Paredes foi hoje para o Céu das Pessoas Boas. Cheio de guitarras portuguesas. Os acordes celestiais ficam por conta do Mestre.
Lá pelos anos 70/80 ouvi um músico da época contar que entre eles se dizia o seguinte: “Cantores há muitos, artistas há dois – o Zeca e o Paredes”.
A melhor homenagem que podemos fazer-lhe é ouvi-lo, lembrar a sua arte e imitar a sua modéstia e humildade.
E disse.
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julho 09, 2004
Papa ao quadrado
"Vou resumir sintetizando"
Além de "Papa do Futebol", corre o risco de se tornar o "Papa da Língua Portuguesa" do século XXI.
Mais palavras para quê? Jorge Nuno Pinto da Costa dixit.
E disse.
Publicado por vitriolica às 02:16 AM | Comentários (2)
março 15, 2004
Agora virei escritora
Pois claro! Uma mulher com cinco meses e meio de treino, que já foi lida mais de 19 500 vezes, pois os meus visitantes que fazem o favor de vir ler as minhas redacções hão-de concordar que já tenho alguma prática e posso abalançar-me a entrar num concurso literário.
Cheguei à conclusão que as minhas redacções até não são nada mal ajeitadas, mas o verdadeiro culpado (ao quadrado) é o Senhor Luís Ene. Ao quadrado porque: 1 . Inventou este concurso; 2 . Deixou-me aqui um comentário que foi assim como se me metesse em brios. Se calhar não era essa a intenção dele, mas a verdade é que de repente deu-me na ideia.
Foi quando estava a fritar umas solhas prò jantar, e a fazer um arrozinho de berbigão que ficou tão bom que até os anjos o comiam! Estava mais o Cocó na cozinha, e de repente lembrei-me do concurso. .Sabes, Cocó, hoje à meia-noite acaba o concurso do Senhor Luís.. .Aquele dos contos? E o que tens tu a ver com isso? Se calhar pensas que também és escritora, lá porque escreves no blog quase todos os dias!. .Até nem penso, Cocó. Mais, sei que não sou, nem penso vir a ser. Mas assim como assim não custa nada, é só contar uma história e não dar erros de Português, que isso é que eu não acho nada bonito.. .Realmente, é capaz de não ser complicado! O que não falta praí é gente que até publica livros e vai-se a ver se não fossem os correctores ortográficos e mais os senhores revisores aquilo devia ser uma desgraça....
.Olha, Cocó, eu não falo do que não conheço, e como nunca tive pachorra para ler esse tipo de literatura que chamam .light., não dou opiniões. Na literatura sou como na cozinha, gosto de coisas com substância que não sou mulher de coisas levezinhas tipo meia folha de alface e um quarto de peito de frango com duas colheres de iogurte magro. Nada como um belo naco de carne estufada, um peixinho assado no forno com uma bela molhanga e quilos de batatinhas... Assim um Eça de Queirós, uma coisinha assim está mais para o meu paladar..
.Mas essa coisa do concurso, .tavas a falar a sério? Se calhar não te saías muito mal... E ias contar o quê? .- disse o bicho meio em ar de gozo. .Pois. O problema é esse, Cocó. Falta-me o assunto.. .Ora! Uma mulher como tu com falta de assunto... Essa é nova!. . o bicho meio provocava, meio parecia rir-se de mim. Começava a ficar um tanto irritada.
.Uma coisa é contar as coisas da vida de todos os dias, e outra é escrever um conto. .Bah! É tudo a mesma coisa! Histórias são histórias e o resto é conversa.. .Ai é? Então e tu, meu galaró, estás sempre no terreiro a inventar milongas sobre as tuas conquistas, que eu é que sei as invenções que tu fazes . a tua sorte é eu não ir lá e contar as verdades para te deixar envergonhado! Já que achas assim tão fácil, porque não escreves tu um conto?.
.Ora! Sabes bem que as minhas patas não se entendem com teclas. Senão, havias de ver! Imaginação não me falta! É preciso é arrancar com o velho .Era uma vez... e o resto vem por si só....
.Ai é? É assim tão fácil? Então podemos fazer a coisa a meias: tu ditas, eu escrevo; mas já sabes que a história tem que ir em meu nome, porque o blog é meu!. .Tá bem, mas se ganharmos, prometes que contas que fui eu que inventei a história?. .Claro, Cocó! Então eu podia lá roubar-te uma honra dessas? A gente sabe que há muito por esse mundo quem faça dessas maldades . e não é de hoje nem de ontem, essa história já é antiga! Mas cá em casa não há desses mau hábitos. Então, como é que vamos começar?.
.Como é que havia de ser? Escreve lá aí: .Era uma vez.....
Quem quiser conhecer o resto da história já sabe onde há-de procurá-la.
E disse.
Publicado por vitriolica às 12:40 AM | Comentários (2)
outubro 09, 2003
Ídolos (os meus)
Et je veux qu'on rie
Je veux qu'on danse
Je veux qu'on s'amuse comme des fous
Je veux qu'on rie
Je veux qu'on danse
Quand c'est qu'on me mettra dans le trou
In Le Moribond
(letra e música: Jacques Brel)
Enche de poesia e música o Céu há 25 anos
E continuo a ouvir.
Publicado por vitriolica às 02:05 PM | Comentários (2)